O fim de um jejum necessário

Virei jornalista meio que por acaso, e valeu a pena, mas fui abandonando a atividade pouco a pouco, ano a ano, sempre tentando abrir espaços para outros modos de vida. O mesmo aconteceu com a minha trajetória de professor: investia e desinvestia conforme as demandas por bem-estar físico e mental. Principalmente mental. O único objetivo que atravessou com alguma constância pelo menos metade da minha vida foi o de me tornar escritor. E aconteceu, e também valeu a pena. Porém, experimentei – por vontade própria – um jejum de mais de dois anos.

Confesso: o escritor que habita em mim me fez pouca ou nenhuma falta durante esse tempo (rss). Na verdade, nunca me senti nato para isto ou aquilo, em termos profissionais. Certos tipos de escolhas exigem certezas que jamais terei. Desde bem jovem eu já devia saber (sem de fato sabê-lo) que podia ser o que quisesse e o que não quisesse; e por vontade ou por indução alguma coisa acabei sendo nestes 52 anos. [A propósito, antes de estudar jornalismo (depois de iniciar e abandonar três cursos), fui bancário, topógrafo e projetista de redes de transmissão elétrica.]

Foto: Chee Keong Lim (2015)

Na minha cabeça de baby boomer, carreira era sinônimo de reta ascendente. Você faz a sua escolha, constroi uma reputação e desfruta-a. Mas essa ideia nunca me deixou à vontade. Quando um desafio terminava ou quando eu percebia que havia dominado os fundamentos da “novidade”, me batia uma inquietude incontrolável, uma vontade louca de voar para outras árvores. Outro dia me perguntaram assim: “Você realmente largou essas três carreiras?”. Na ocasião, em vez de responder honestamente, apertei os botões das justificativas automáticas e socialmente aceitáveis.

Algumas delas:

  • então, aquele jornalismo “sério”, sabe, aquele que aprendemos na escola, baseado no equilíbrio e na profundidade, não existe mais – e eu não quero me tornar militante de nenhuma causa com “ideias fixas”;
  • pois é, as faculdades de jornalismo, olha, vou te dizer uma coisa, viraram uma máquina de fabricar diplomas e degolar inteligências;
  • e a literatura, cara? Ah, a literatura, não dá: ela perdeu de goleada a batalha contra a instantaneidade, um horror.

Respostas prontas e evasivas, enfim.

Não que os arrazoados acima sejam inveridicos. Ao contrário. Para os membros da minha geração são até óbvios. Daí resolvi perguntar-me: apesar de todas essas supostas precariedades e retrocessos, você não podia ter continuado? Continuado a escrever, publicar, dar aulas? Mesmo recebendo pouco ou nada (pois ainda vigora no meio educacional-cultural o trabalho grátis), você não poderia ter feito só pelo prazer de fazer? Quanto à literatura, é uma atividade árdua e inglória, sim, mas tem aqueles “estimulantes” encontros literários, não? Você podia participar como “speaker”, que tal? Ou ministrar workshops de escrita criativa…

Huuumm…. Que preguiça disso tudo. [Não consigo continuar fazendo coisas nas quais deixei de acreditar.]

O fato é que eu podia tudo, claro. Tinha todas as condições necessárias: força, disciplina, talento e alguma poupança. Mas preferi não fazê-lo. Não fui expurgado pelo Sistema, não. Apenas fiz opções contrárias ao script. A mais recente dessas opções, digamos, não convencionais, foi em 2016, quando decidi me mudar para a Itália com Patrícia e Filó (nossa gatinha anciã). Tenho cidadania italiana por parte da família da minha mãe. Em Florença, sobrevivo como posso, conforme o câmbio, sem crachá, sem status quo, sem instituições de fomento (odeio essa expressão!) e sem poderes adquiridos ou autoatribuídos.

A redação deste textinho, então, seria uma prova de que voltei à escrita? Acho que sim. Só que agora é um pouco diferente. Estou em busca apenas de um passatempo “improdutivo”, como colecionar selos, observar pássaros, cultivar flores, jogar cartas, mergulhar com respirador. Depois de tantas publicações, tantos sucessos e insucessos, tantos conflitos com a herança linear-construtivista, achei que era hora de romper e experimentar. Sem nostalgias nem ressentimentos. Tranquilo.

E agora cá estou, avançando para trás, crescendo para baixo, expandindo para o centro e tentando fluir em todas as direções. Fechei um acordo inédito com o Universo. Um pacto de duas cláusulas, na verdade: 1) Nasci para os desafios que se renovam, estejam onde estiverem, mas não para repetir esfoços em nome de uma estabilidade sempre falsa; 2) O ato de escrever despretensiosamente é um poderoso anticorpo contra a depressão e o estresse deste mundo vago, fútil e cada vez mais exaltado (no mal sentido).

Sergio Vilas-Boas

Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e professor. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo" e "A Superfície Sobre Nós" (romance). Mora em Florença. Mais informações: http://www.sergiovilasboas.com.br

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    Christian Carvalho Cruz

    Caro Sergio, tudo bem?
    Acabo de ter o momento feliz do dia: “encontrar” estas notícias suas.
    Boa jornada por aí.
    Um abraço,
    Christian

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