Quem se conhece que o diga

Digamos assim: o nosso eu é como um livro. Tudo o que nos caracteriza, o que gostamos e o que não gostamos, o que sabemos fazer (bem ou mal), as nossas esperanças, os nossos temores, etc. está escrito no tal livro em linguagem objetiva e clara. Basta consultarmos. Certo? Errado. Segundo cientistas, não temos um acesso assim tão privilegiado ao nosso eu e por isso é difícil definir exatamente quem somos. [Na verdade, não temos somente um eu. Temos vários. Temos o eu-pai/mãe/filho(a), o eu-profissional, o eu-social, o eu-amigo(a)/namorado(a), etc.]

A psicóloga Emily Pronin (Universidade Princeton), estudiosa da personalidade, afirma que, quando se trata de nos autoavaliarmos, tateamos no escuro. A nossa autoimagem não é HD, definitivamente (risos). Pronin deu um nome para essa nossa distorção de ótica: “ilusão de introspecção”. [A palavra introspecção vem do latim; significa “olhar para dentro”.]

O olhar subjetivo que direcionamos para dentro de nós é cheio de deformações, mas evitamos aceitar esse fato

O olhar subjetivo que direcionamos para dentro é cheio de deformações, mas evitamos aceitar esse fato, afirma Pronin: “No geral, a nossa autoimagem tem pouco em comum com o modo como nos comportamos”. Por exemplo, se não nos agrada a ideia de parecermos mesquinhos, soberbos ou arrogantes, dizemos para nós mesmos que não somos assim e ponto. A prática, porém, é outra.

Há pessoas que se acham generosas e empáticas, mas fingem não enxergar o morador de rua que se aproxima da janela dos seus carros parados no semáforo. Também não são raros os indivíduos com um ego imensurável e desprovidos de autocrítica – nesses casos, é quase absoluta a distorção entre o eu declarado, o eu praticado e o eu percebido pelos outros.

A dificuldade em definir a própria personalidade tem a ver com o fato de não conhecermos as nossas linguagens não verbais: a linguagem corporal (gestos, caras e bocas, etc.) é uma delas. Só quem nos observa pode dizer ao certo o modo como agimos/reagimos. A nossa (auto)imagem é multidimensional. Para se conhecer, a gente precisa se deixar conhecer pelo(s) outro(s) e não podemos desconsiderar as reações alheias.

Quem convive conosco de perto sabe muito a nosso respeito

Muitas pesquisas recentes também mostraram que quem convive conosco de perto sabe mais sobre nós do que nós mesmos. Não por acaso, Pronin e colegas confrontaram as autoavaliações dos pesquisados com os seus comportamentos tanto no cotidiano real quanto em situações criadas em laboratório – situações em que os pesquisados não tinham tempo para refletir antes de agir.

Sempre damos um jeito de nos distanciarmos de definições socialmente malvistas como “desonesto” e “narcisista”, mas fazemos o inverso com características bem aceitas, como “inteligente” e “criativo”. A nossa autopercepção e a percepção dos outros em geral coincidem em adjetivos mais neutros, como “pontual”. O fato é que um pouco de distanciamento facilita uma autopercepção mais segura.

O grau de conhecimento que temos sobre nós mesmos impacta profundamente a nossa capacidade de sociabilização. A gente se conhece bem em alguns âmbitos da vida, mas em outros somos tão influenciados pela necessidade de nos vermos sob uma luz positiva pelos outros que nos tornamos estranhos até para nós mesmos. Então, pedir o feedback de outras pessoas certamente ajudará a aprender mais sobre quem somos e como estamos indo.

Interessante que Oliver Schultheiss (Universidade Erlangen-Nürnberg) e colegas tenham demonstrado que a nossa sensação de bem-estar aumenta quando os nossos vários eus estão mais ou menos alinhados. Por exemplo, se você não tem o perfil de correr atrás de dinheiro e poder o tempo todo, evite esse caminho, porque você pode se dar mal (ou se dar bem e sentir-se frustrado). Schultheiss provoca: “Tente imaginar como estaria se aquilo que mais deseja se tornasse realidade hoje. Você estaria mais ‘feliz’?”.

Outro aspecto importante dos nossos eus entrecruzados é o fato de frequentemente acharmos que somos melhores do que realmente somos. A gente tende a não enxergar os nossos déficits cognitivos, dizem os estudiosos. O ideal seria uma dose moderada de autoavaliação positiva (isso poderia sem dúvida ajudar quem sofre de depressão aguda; os deprimidos tendem a se autoavaliarem com um realismo brutal).

O oposto também ocorre com uma frequência incrível: há pessoas (não deprimidas) que se subvalorizam tanto que acreditam não ter realizado nada (de bom). Seria lógico então que uma pessoa com uma imagem negativa de si mesma tentasse se supervalorizar para poder compensar, certo? Errado. Pesquisadores da Universidade do Texas (Austin) comprovaram que é exatamente o contrário. Quem tem uma percepção muito negativa de si mesmo tende a buscar a confirmação de que é mesmo horrível, incompetente, patético, etc.

Os nossos erros de avaliação são muito variados. Entre esses erros há a crença de que tudo muda o tempo todo, menos um tal de “eu essencial”, algo supostamente sólido e estável como uma rocha. Presumir que exista um núcleo fixo e imutável dentro da nossa personalidade pode causar acomodações prejudiciais. Por esse raciocínio uma pessoa má seria essencialmente má; uma pessoa bondosa seria essencialmente bondosa. E nunca poderiam mudar isso (não haveria nuances?).

A ideia de um “eu essencial”, fixo e imutável, não corresponde à realidade

Não é assim tão simples. Acho que qualquer adulto que queira realmente mudar seu comportamento tem grandes chances de consegui-lo – se fizer pelo menos a sua parte, claro. Outra coisa: as experiências transformam os eus. Pensando em mim: eu era um quando adolescente, outro quando jovem profissional, outro quando mudei de carreira e outro a partir de quando finalmente aceitei a minha primeira grande derrota. Mas o mais importante é o seguinte: sou hoje diferente do que fui anteontem.

O fato é que a psicologia experimental está pondo em xeque a ideia de que podemos nos conhecer de uma maneira objetiva e definidora; e tem mostrado que o eu não é uma coisa, mas sim um processo, uma adaptação contínua às circunstâncias. Aliás, o fato de nos definirmos como sendo isso, aquilo e/ou aquilo outro beneficia – e muito – esse processo adaptativo.

Sergio Vilas-Boas

Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e professor. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo" e "A Superfície Sobre Nós" (romance). Mora em Florença. Mais informações: http://www.sergiovilasboas.com.br

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