Placebos: a ilusão da expectativa

Há décadas os profissionais da área de saúde sabem que a simples expectativa de receber um tratamento por si só já pode produzir algum alívio nos pacientes. Não por acaso, cerca de 50% das pessoas que recebem um placebo – substancia neutra, sem efeito, geralmente usada para tratar quem não precisa de medicação (mas pensa que precisa) ou para testar os efeitos de outros medicamentos – declaram uma melhora equivalente àquela apresentada pelos pacientes tratados com substâncias ativas.

No entanto, estudos recentes mostraram que o efeito placebo vai muito além das pesquisas farmacológicas e dos tratamentos médicos. Assim como a expectativa e o contexto social podem influenciar nossas decisões, motivações e opiniões, o efeito placebo pode moldar o nosso comportamento. Botões de semáforos e interruptores para fechar portas de elevadores, por exemplo, muitas vezes funcionam como placebos. Ou seja, não têm efeito, mas nos dão a ilusão de controle do tempo.

O efeito placebo vai muito além das pesquisas farmacológicas e dos tratamentos médicos

“A diferença às vezes está em pequenos detalhes”, afirma o cientista Winfried Rief, da Universidade Phillips, em Mardburg, Alemanha. “Por exemplo: o placebo rosa é mais eficaz que o azul; quatro capsulas de placebo têm mais efeito que duas; e um placebo avaliado em 5 euros (cada) produz resultados melhores do que um placebo avaliado em cinco centavos cada.”

Ilusões cognitivas ligadas à geração de expectativas são comuns. “Essas ‘ilusões’ se acentuam em situações específicas, nas quais nos sentimos ameaçados, intimidados ou sob pressão”, explica Mirta Fiorio, da Universidade de Verona, Itália. Café para acordar pela manhã: se por acaso não o tomo, me sinto sem energia. A cafeína é comprovadamente um estimulante, mas a expectativa que crio em relação a isso também influi no meu despertar.

Pesquisadores da Universidade de Syracuse (EUA) fizeram testes com a cafeína. Estudantes que receberam um placebo acreditando que continha cafeína declararam que não só sentiram o efeito da substância como mantiveram um alto nível de concentração durante os exames de fim de semestre. Os resultados obtidos por eles/elas nas provas, porém, foram muito baixos, segundo os pesquisadores. Iludidos, os estudantes se deixaram levar pelas expectativas.

Sobre essa ilusão de expectativa (ou expectativa ilusória, tanto faz), me recordo de uma história (talvez uma anedota) interessante: consta que Giacomo Casanova consumia 50 ostras por dia para satisfazer suas amantes. Ostras contêm zinco, essencial para a produção de testosterona e espermatozoides, sim.  Porém, estudos recentes mostraram que a maioria dos medicamentos considerados afrodisíacos não interferem nem no desempenho sexual masculino nem no prazer feminino.

[Homens que acreditaram ter tomado Viagra (em vez de placebo) garantiram que haviam experimentado um desempenho sexual melhor, mas a causa provavelmente residia no efeito desinibidor do álcool, na atmosfera criada e nas fantasias (risos).]

No cotidiano dos esportes, diferentemente, é difícil isolar o efeito placebo dos efeitos das substâncias contidas em suplementos alimentares. Tomar água acreditando que é uma bebida energética é impraticável. Mas, com sugestões verbais e procedimentos condicionantes, pesquisadores da Universidade de Verona provaram que diversos tipos de placebos ajudam a aumentar a velocidade, a força e a resistência, criando nos esportistas a sensação de uma performance motora maior.

No fundo, não só o efeito placebo – mas também o efeito pigmaleão, o efeito do falso consenso, o efeito spotlight e o overconfidence effect – é um sintoma de insegurança que surge (e se fortifica) em situações de perigo. A função disso é nos tranquilizar. Alías, o efeito placebo não ocorre somente quando a pessoa acredita que está sendo tratada por um medicamento eficaz. “O contexto (o lugar, o tipo de medicamento, a postura do médico, os aspectos sociais e o processo de tratamento) também influencia a cura – ou a sensação de cura”, sublinha Mirta Fiorio.

  • O lugar: se realizado em um consultório médico, o tratamento funciona melhor do que na casa do paciente, por exemplo. [E um avental branco pode aumentar ainda mais o efeito positivo.]
  • O medicamento: na mente dos pesquisados, pílulas têm mais efeito que comprimidos; cápsulas grandes agem melhor do que as pequenas; comprimidos azuis acalmam; vermelhos, estimulam.
  • A postura do médico: se o médico está convencido do tratamento e se expressa de maneira entusiástica e clara, o tratamento é mais eficaz.
  • Aspectos sociais: o modo de olhar, o tom de voz e o contato físico podem inspirar confiança e passar a impressão de maior competência.
  • O tratamento: quanto mais invasivo, mais eficaz. Nesse sentido, as injeções são mais eficientes que as pílulas, mesmo quando não contêm princípio ativo.
Durante a Segunda Guerra, o médico Henry Beecher realizou uma cirurgia sem morfina e a partir de então começou a estudar os placebos

Por falar em injeção, foi uma injeção que desencadeou pesquisas aprofundadas sobre placebos. Assim: nas últimas semanas de Segunda Guerra Mundial o cirurgião Henry Beecher, oficial americano, ficou sem morfina no hospital onde servia e mesmo assim tinha que operar um soldado gravemente ferido. Beecher temia que, sem morfina para bloquear a dor, o soldado teria um choque circulatório. A enfermeira então preparou uma injeção de cloreto de sódio em lugar da morfina. O soldado se acalmou e adormeceu. A cirurgia deu certo e o corte foi suturado.

A coisa mais importante nisso tudo, no entanto, foi que o soldado não sentiu dor durante a cirurgia. Beecher ficou intrigado. Terminada a Guerra, ele começou a estudar mais atentamente o fenômeno e se tornou um dos pioneiros em pesquisas sobre placebos. Os efeitos dos placebos no cérebro e no organismo são surpreendentes; e o fato de a esperança estar por trás disso tudo é um evidente sinal de que precisamos acreditar em alguma coisa, não importando muito se essa tal coisa existe ou não.

Sergio Vilas-Boas

Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e professor. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo" e "A Superfície Sobre Nós" (romance). Mora em Florença. Mais informações: http://www.sergiovilasboas.com.br

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