Precisamos de fronteiras e limites

Fronteiras e limites não são temas geopolíticos somente. Os dois substantivos se aplicam também à nossa psique. Inevitavelmente, precisamos estabelecer fronteiras e limites nos nossos relacionamentos com os outros e com nós mesmos. Mas em geral vivemos entre extremismos do tipo “abrir-se completamente ao contato” ou “esconder-se como um caramujo”. Encontrar o exato equilíbrio entre esse abrir-se e fechar-se, sem nos ferir e sem permitir que alguém tire proveito de nós – e sem passar por cima das nossas capacidades e valores – é um desafio e tanto.

A ideia de “no limits” pode nos arrastar para um círculo vicioso de frustrações crescentes

Vivemos no mundo do “no limits” (nenhum limite), como se os resultados atingíveis fossem ilimitados e as condições para atingi-los fossem iguais para todos, bastando colocar os planos em prática. Daí que se você não consegue o problema é todo seu: você não foi suficientemente determinado(a). “A ideologia do ‘no limits’ é uma receita infalível para a insatisfação”, escreve o psicólogo alemão Rolf Sellin em seu livro “Pessoas Sensíveis Sabem Dizer Não” (sem tradução para oportuguês).

Saber definir os próprios limites é importante para evitar que a gente se sinta inadequado e se torne presa fácil para manipuladores. E por que essa dificuldade toda em estabelecer fronteiras e limites? “É  um problema de percepção”, acredita Sellin. “Muitas pessoas não percebem nem quando ultrapassaram os próprios limites nem quando as suas fonteiras foram ultrapassadas por invasores. Só se dão conta a posteriori, quando a frustração, a culpa ou a raiva já tomaram conta.”

Qual a diferença entre fronteira e limite? As fronteiras se referem à nossa relação com os outros. Até aquele determinado ponto consigo (ou o outro pode) chegar. Já os limites dizem respeito às nossas capacidades. Isso eu consigo fazer, mas aquilo, não. Quando exigimos de nós mesmos menos do que poderíamos, operamos dentro do nosso raio de ação, mas bem abaixo do nosso potencial. Por outro lado, estabelecer metas muito acima das nossas possibilidades é arriscado, segundo Sellin.

“Quanto mais exigências fazemos a nós mesmos, maiores as chances de fracassarmos; e cada fracasso real gera um círculo vicioso: na próxima oportunidade, estabeleceremos objetivos ainda mais difíceis de atingir, não conseguiremos de novo e nos sentiremos pior a cada vez.”

Imagine uma torta de chocolate: na primeira garfada, percebemos que está deliciosa. Na segunda, melhor ainda. Quando mais a comemos, mais a apreciamos. Mas depois de comer muita torta chegamos ao ponto em que a próxima garfada já não será percebida com o mesmo prazer; e se continuarmos a comê-la vorazmente mesmo assim, ela ficará enjoativa. “Pense que o nosso limite é aquele em que apreciamos a torta ao máximo.”

O sinal de distância ou de proximidade em relação às nosas fronteiras e limites é dado pelo corpo, não pela mente (racional) ou pelo coração (emocional/passional). “Para conseguirmos individualizar cada situação e evitar a superação de uma fronteira ou de um limite – no trabalho, em família, com amigos, em relação aos nossos sonhos, etc. – precisamos estar em contato com o nosso corpo: adverti-lo e deixar-se advertir por ele.”

Culturalmente falando, porém, o corpo não tem recebido a devida atenção. Na cultura do corre-corre e da divagação mental fragmentada, o corpo foi transformado em órgão executor de tarefas; em estrutura para impedir que a alma vagueie no espaço; em equipamento para a prática de atividade física; em escultura feia/bonita ou desejável/indesejável, que deve (ou não deve) ser exibida como prova de caráter, poder e status.

“A mente não conhece limites; as emoções, tampouco. O espírito e a energia são em si ilimitados, digamos, mas a matéria não. Então, por possuir o aparato sensorial que nos permite identificar os limites, o corpo tende a nos relatar a realidade dos fatos muito mais precisamente do que a cabeça e do que o coração. A mente produzirá hipóteses e pensamentos mais ou menos inteligentes sobre a conjuntura, enquanto o coração fará de tudo para nos deixar em paz com todo o mundo. Ou seja, são de pouca ajuda.”

Não temos um só limite que valha para todas as situações. Temos tantos variados limites quanto inúmeras possibilidades viáveis. Mas, nos diversos âmbitos do cotidiano, tudo vai depender do quão capazes seremos de realizar e de suportar, e isso, por sua vez, dependerá das escolhas que fizermos. Um atleta especializado em lançamento de martelo se ocupará de ampliar ao máximo os recordes em sua modalidade. Por outro lado, não será simultaneamente bem sucedido nas corridas de 100 metros, por exemplo.

O nosso limite ideal fica a um passo (do lado de cá) da fronteira que separa o prazer do desprazer

“Do mesmo modo, os nossos limites podem ser mais ou menos estreitos ou mais ou menos amplos de acordo com o momento e as circunstâncias que estamos atravessando. Hoje nos sentimos mais fracos que ontem, e assim o nosso raio de ação fica mais limitado. Restabelecidas as forças, podemos ousar mais. Os limites se autorregulam por meio de sutis modulações, porque são um espelho da energia de que precisamos para cultivar os nossos talentos.”

Quantas discussões e irritações teriam sido evitadas se tivéssemos modulado de maneira adequada o sim e o não. Os conflitos, eles surgem quando os limites são desrespeitados e alguém foi arrastado (ou se deixou arrastar) para fora das suas fronteiras de bem-estar. “A pergunta chave é a seguinte: onde passa a linha que demarca a fronteira entre mim e os outros? Se fronteiras e limites fossem respeitados, uma boa parte dos problemas cotidianos geradores de estresse seria eliminada.”

Sergio Vilas-Boas

Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e professor. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo" e "A Superfície Sobre Nós" (romance). Mora em Florença. Mais informações: http://www.sergiovilasboas.com.br

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