Atitude é o que nos caracteriza

As nossas atitudes (positivas, negativas ou ambivalentes) são muito mais importantes do que imaginamos, e por isso precisamos repensá-las de tempos em tempos. [Não por acaso criei esta revista e dei a ela esse nome (risos).] Você já deve ter ouvido frases como “atitude é tudo”, “atitude é a pequena coisa que faz a grande diferença” ou “precisamos tomar uma atitude (imediatamente)”. Parecem óbvias, e de fato são, mas é exatamente por isso que fazem sentido em qualquer época e de qualquer modo.

Pode-se ter uma atitude em relação à política, outra em relação aos esportes, outra ou nenhuma em relação a dinheiro e por aí vai. Não raro a gente repete ideias do tipo “precisamos mudar a atitude para poder combater o racismo”. Mas o que é atitude, afinal? Basicamente é uma tríade composta por crenças, desejos e emoções. Tomemos como exemplo as atitudes em relação ao tema Deus. Religiosos acreditam que Deus existe, desejam rezar e sentem prazer (emoção) em fazê-lo.

Cada um possui um estado mental predisposto a agir ou reagir de uma certa maneira diante das circunstâncias

Por outro lado, ateus têm uma tríade crença-desejo-emoção diferente. Não acreditam que Deus existe ou que Deus responde a preces e não se sentem felizes diante de pregações religiosas. Ou seja, pessoas diferentes têm atitudes diferentes em relação aos mais variados assuntos. E atitudes não são fixas. Mudam com o tempo e as experiências. Além disso, o mesmo indivíduo pode tomar atitudes diferentes em fase diferentes da vida. Eu próprio mudei muito de atitude. Questão de sobrevivência, claro.

A atitude é a maneira como sentimos, exploramos e explicamos o mundo. Isso pode influenciar todos os âmbitos da existência. Para a psicologia, a atitude é a instância mental que nos dá um caráter. Nem todo indivíduo nasce com essa instância já instalada no DNA, mas, deixando de lado os fatores genéticos, por enquanto, digamos que a atitude é uma construção feita de aprendizados e vivências. Crenças, desejos e emoções estão na base das atitudes – e da falta de uma.

A família tem papel importante nos primeiros anos. Inicialmente, imitamos as atitudes dos pais, irmãos, irmãs, parentes, amigos. A cultura, por sua vez, nos ensina o aceitável e o inaceitável. Outro aspecto fundamental é o econômico. As atitudes dependem – e muito – das condições em que trabalhamos e do quanto recebemos pelo nosso trabalho. Na transversal disso tudo – família, sociedade e dinheiro –, estão as inúmeras pessoas que de alguma forma nos influenciaram e influenciam.

Crenças, desejos e emoções = atitudes

Cada um de nós possui um estado mental (formado pela relação passado-presente) predisposto a agir ou reagir diante das circunstâncias de uma certa maneira, em vez de outra. A atitude decorre da leitura que fazemos do que para nós é a realidade naquele dado momento. Esse entendimento pode variar entre o extremamente negativo e o extremamente positivo – claro, as ambivalências (a simultaneidade de dois sentimentos opostos) são igualmente relevantes.

Voltando àquela tríade: as emoções são o componente mais importante das atitudes, e elas vêm à tona em graus variados – do tênue ao severo, passando pelo moderado. Se a emoção é tênue, a crença e o desejo tendem a ficar menos expostos. Se a emoção é intensa, toda a tríade se torna intensa e decisiva para a pessoa envolvida. A vingança, por exemplo, tem origem em emoções fortes, que surgem quando as crenças e as expectativas são incomodadas por visões de mundo discordantes.

A questão central é: podemos controlar ou mudar nossas atitudes? Suponha que você descobriu que tem diabetes. Você pode ter uma atitude intensa em relação ao problema. Crença: “Diabetes é uma doença horrível de se ter”. Desejo: “Eu realmente queria não tê-la adquirido”. Emoção: “Estou triste e com muito medo”. Uma reação moderada seria dizer “Diabetes não é fácil, mas acho que posso ter uma vida mais ou menos normal. Não queria ter adquirido a doença e estou triste, mas vou enfrentá-la”.

Pesquisas indicam que a esmagadora maioria das pessoas superestima a probabilidade de vivenciarem eventos favoráveis e subestima a probabilidade de experimentarem fatos desfavoráveis. Significa que subestimamos a probabilidade de ter um câncer ou de sofrer um acidente de carro; significa que superestimamos a vontade de viver bem até os 100 anos e as perspectivas de carreira. Somos mais otimistas que realistas, no geral, mas não damos muita atenção a esse fato.

O otimismo é mais forte em relação a si próprio

Independentemente de nacionalidade, idade e gênero, o otimismo em relação a si mesmo é um fenômeno global, mas o mesmo não ocorre com o otimismo em relação à humanidade. Então, aquela velha teoria de que o segredo da felicidade está em não criar expectativas – para não se decepcionar – se revelou furada porque (1) a frustração decorre de como interpretamos a frustração e (2) as pessoas com expectativas altas se sentem melhor preenchidas existencialmente que aquelas com expectativas baixas.

Pesquisas feitas entre alunos com altas e baixas expectativas sugeriram que indivíduos com altas expectativas tendem a atribuir a si mesmos os bons resultados obtidos e acreditar em outros bons resultados no futuro. Já os indivíduos com expectativas baixas tendem a colocar a culpa de seus fracassos nos contextos ou em outras pessoas e sentem desconforto. “A simples antecipação (imaginária) de um evento que acreditamos será positivo já nos deixa mais contentes”, diz a neurocientista Tali Sharot.

Sharot estuda como o cérebro influencia (e é influenciado) pelo que ela chama de “o viés otimista”. “Aliás, esta é uma das razões pelas quais a maioria das pessoas prefere a sexta-feira ao domingo. Não porque adoram trabalhar, mas porque a sexta-feira é uma antecipação do fim de semana, enquanto o domingo é o prenúncio de mais uma semana de trabalho chato. Otimista é quem tem mais esperança, sim, e essa antecipação por si só já eleva o bem-estar.”

Os levemente deprimidos são bem mais realistas que os indivíduos 100% saudáveis, mas quem tem depressão profunda é irremediavelmente pessimista, indicam pesquisas realizadas no mundo todo. “Experimentos controlados mostraram que o otimismo não está apenas relacionado ao sucesso”, explica Sharot. “O otimismo conduz ao sucesso: no meio acadêmico, nos esportes, na política, nos negócios, etc. Um dos benefícios disso tem a ver com a saúde. Expectativas positivas reduzem o estresse e a ansiedade.”

O  mesmo não ocorre com as pessoas intrinsecamente pessimistas. Se elas acreditam, por exemplo, que têm 10% de probabilidade de detectar um câncer, o fato de que as chances cientificamente comprovadas sejam de 30% não altera as suas expectativas. Mesmo contrariando os fatos, elas continuam acreditando que têm apenas 10% – talvez 11% (risos) – de chances de desenvolver um câncer. É como se dissessem assim: “Fumar mata, eu sei, mas mata principalmente os outros, não eu”.

Expectativas positivas reduzem o estresse

Estudos sérios indicam que uma atitude negativa é garantia quase total de uma vida mais complicada e menos compensadora, com impactos terríveis nos relacionamentos, no trabalho e na saúde. O pessimista convicto vivencia situações desprazerosas continuamente. Embora algumas investigações apontem o negativismo como um aspecto estável da personalidade, a maioria dos psicoterapeutas acredita que ele foi reforçado pela memória e pelo hábito e, portanto, pode ser alterado.

As experiências pessoais muitas vezes ensinam a pessoa a desenvolver um viés pessimista. Históricos de trauma, abuso ou fracasso, por exemplo, funcionam como antecipadores de negativismos diversos, tornando inócuos os esforços por uma mudança de perspectiva. Pessimistas não vêm os outros seres humanos com bons olhos e não acreditam que relacionamentos sejam benéficos. Com uma qualidade de vida ruim, vão empurrando a vida e aplicando a tudo o mesmo parâmetro: “Não vale a pena”.

O fato é que a atitude negativista é como um pneu furado. Se você não trocá-lo, não chegará a lugar nenhum. Agir de maneira construtiva em situações adversas não tem nada de naïf ou fantasioso. Ao contrário, é um exemplo de atitude (concreta, prática, efetiva); é o mais pleno exercício do que chamamos genericamente de instinto de sobrevivência. Mais: a atitude positiva está na lista das coisas importantes que não exigem um talento especial, como ser pontual, querer aprender sempre e estar pronto para o que der e vier.