O bom humor civiliza

O humor é uma forma de entretenimento, mas também um modo de lidar com situações complicadas e eventos estressantes. Embora tenha sido observado e analisado em todas as culturas e em todas as épocas, somente nas últimas décadas a psicologia experimental acolheu o humor como parte essencial do comportamento humano.

Espirituoso ou absurdo, o humor ajuda a criar vínculos, liberar tensões, atrair parceiros e colocar os rivais em seus devidos lugares (risos). Um bom senso de humor pode ainda proteger a saúde do coração e reforçar o sistema imunológico. Por outro lado, quando se sobressai de forma sombria, hostil, antagônica ou degradante, o humor pode causar problemas.

Piadas étnicas, racistas e sexistas, por exemplo, perderam espaço a partir dos anos 1990, quando o politicamente correto se tornou um padrão na comunicação social. A propósito, dizem os humoristas profissionais, a política é o terreno mais fértil para a criação de escárnios e ironias. A política é o “bordel da mentira”, em que todos fingem e ninguém é confiável.

Existem tantas funções e estilos diferentes de humor quanto variações no modo de contar e de interpretar uma piada

Existem tantas funções e estilos diferentes de humor quanto variações no modo de contar e de interpretar uma piada (até porque tipos diferentes de pessoas tendem a rir de tipos específicos de piadas). Por exemplo, os homens tendem a apreciar mais o humor sombrio, agressivo e satírico; as mulheres, a comédia sentimental; mas ambos preferem o humor cômico ao humor sarcástico.

No verão de 2018 surgiu aqui na Itália a “Risu”, primeira revista de estudos sobre o humorismo. Salvatore Attardo, da Universidade do Texas A&M, um dos maiores estudiosos do assunto, publicou na “Risu” um artigo em que enumera as mudanças ocorridas na maneira de estudar/pensar o humor ao longo dos séculos: da Grécia Antiga aos experimentos recentes.

A teoria mais antiga nesse campo – a Teoria da Superioridade – nasce com os gregos. Segundo essa teoria, rimos das desventuras alheias porque nos faz sentir superiores. Já no século 18, diferentemente, os pesquisadores trabalharam com a ideia de alívio, em vez de superioridade – ou seja, a risada nos permite liberar a energia psíquica acumulada nos dias duros.

A terceira grande teoria clássica vê o humor como uma incongruência entre a realidade e as nossas expectativas reais. O que nos faz rir, na verdade, é a conjugação jocosa de conceitos incompatíveis com a vida cotidiana, embaralhando assim os nossos esquemas mentais/sociais. Muitos estudos recentes ainda se prendem à ideia de incongruência, mas tentam ir mais fundo.

A centelha do humorismo, afirmam os estudos mais recentes, pode ser acesa de duas formas: 1) Quando percebemos a violação de uma regra (ética, social ou mesmo física); e 2) Quando essa tal violação nos soa inócua, benéfica, repugnante, repreensível ou perturbadora. Cada uma dessas (e tantas outras) explicações contribui para o entendimento do assunto. Porém, nenhuma delas fornece um quadro teórico completo.

Até porque  o componente evolucionista também deve ser considerado: “O humor e a risada são universais em sociedades humanas e têm antecedentes nos grupos dos grandes símios”, afirma Gil Greengross (Universidade do Novo México). Dois pesquisadores da Universidade de Binghamton, David Wilson e Matthew Gervais, por sua vez, acrescentam que em espécies sociáveis, como a humana, o humor favorece não somente a sobrevivência de um indivíduo, mas do grupo.

Wilson & Gervais distinguem a risada em dois tipos: 1) Há a risada espontânea, emotiva, impulsiva, involuntária; e 2) A risada imitativa, aquela que aprendemos a dar meio que automaticamente (só para nos mostrarmos presentes). “A risada é um instrumento de contágio emocional, um adesivo social para favorecer as interações entre os membros do grupo nos momentos de segurança e saciedade”, explica Wilson.

O fato é que, historicamente, os pesquisadores enquadravam o humor negativamente, ou seja, achavam que por trás de uma piada havia sempre uma vontade de rebaixar/menosprezar os outros ou inflar a própria autoestima. A prática do humor (em todas as suas facetas) seria um comportamento a ser evitado. Os psicólogos experimentais, por sua vez, tendiam a ignorar o humor como um objeto digno de estudo.

Isso mudou. As pesquisas mais recentes consideram o humor não só como parte importante da vida real, mas também como uma articulação entre os âmbitos físico, psíquico e social. O tema, assim, ganhou uma força e um caráter. Descobriu-se que o humor pode ser usado para fazer os outros se sentirem bem, para conquistar intimidade ou mesmo para reduzir o estresse.

Buster Keaton (1895-1966), ao centro: mestre do cinema mudo, famoso pela expressão melancólica e por suas acrobacias

Hoje o senso de humor está no mesmo patamar da gratidão, da esperança e da espiritualidade. Passou a ser visto como “transcendente”: além de nos conectar com o mundo, ajuda-nos a dar sentido às nossas vidas. Sabe-se também que as práticas humorísticas (de qualquer pessoa, no dia a dia) resultam em maior sensação de bem-estar e mais otimismo.

A velha questão sobre “o que é o humor” persiste. Por intuição, entendemos o que é, mas é difícil estabelecer uma definição clara, que englobe todos os aspectos: verbal, visual e gestual; com/sem (ou com duplo) sentido; humor sarcástico (inocente ou agressivo); com ironia intelectual refinada ou como simples diversão calcada na linguagem do corpo (slapstick), como nos filmes de Charlie Chaplin e Buster Keaton.

Rir é uma ótima maneira de manter-se focado em atividades que exigem tenacidade e sacrifício (aliás, qualidades essenciais para concluirmos qualquer trabalho). Dar boas risadas do nosso próprio ser (como faz Woody Allen, por exemplo) é sinal de autoconhecimento. “O humorismo é também a alegria de descobrir alguma coisa sobre nós mesmos”, afirma Oliver Curry, da Universidade de Oxford.