Reconhecimento é fundamental

A palavra reconhecimento possui vários sentidos, mas o que nos interessa aqui é o reconhecimento como o primeiro passo para se obter recompensa por alguma realização relevante em um dado contexto. A letra da canção “High and Dry” do Radiohead tem um trecho assim: “Kill yourself for recognition/ kill yourself to never ever stop/ You broke another mirror/ You’re turning into something you are not”. E você? Daria tudo para obter reconhecimento pelo que faz ou está mais interessado em realizar do que em “ser aclamado”?

Martin Luther King com a medalha do Nobel da Paz (1964): seu foco era a sua luta, não prêmios

Antes de discutir o assunto, acho honesto lhe contar que eu não teria desejado ser escritor se, lá nos anos 1980, quando a ideia entrou na minha consciência, um futurologista me tivesse dito ao pé do ouvido o seguinte: “Olha, num futuro próximo teremos uma revolução tecnológica; a literatura perderá ainda mais importância como produto cultural; e, no Brasil, perderá importância a ponto de haver mais editoras que livrarias, mais livros que prateleiras e mais bate-papo sobre livros do que leitura de livros; e a literatura será mais combatida do que defendida”.

Particularmente, como um escritor que é também meio antiescritor, não tenho muito do que reclamar. Conquistei prêmios e, ao contrário do que vem ocorrendo com a maioria dos meus amigos da área, durante uns dez anos consegui pagar as contas com a escrita, trabalhando como repórter e como autor de biografias e de histórias de empresas. Porém, vendem bem pouco os meus livros, digamos, “espontâneos” (aqueles que existem por culpa exclusivamente minha). Nesse quesito, aliás, estou dentro do padrão.

A autoestima é construída, não inata

Mas o ponto onde quero chegar é outro. Naquela época (35 anos atrás), alguns amigos próximos tiveram a coragem de me alertar: “Pô, mas escrever não dá dinheiro”. E eu respondia, raivoso: “É claro que não dá dinheiro!”. Eles exibiam um olhar interrogativo, o mesmo que qualquer um de nós exibe quando escutamos alguma ideia absurda. Por que diabos o Sergio pensa em ser essa coisa chamada escritor se nem dinheiro dá?

No mundo de classe média (bem) baixa onde fui erguido e me ergui, ser escritor não era uma carreira; e carreira que não gerava dinheiro suficiente para obter confortos mil não era carreira. Ponto. Mas eu pensava diferente. Outro dia, então, resolvi reformular a pergunta que meus amigos me fizeram, na época: “Que recompensa você espera obter como escritor, Sergio? Primeiro, me deu um branco. Depois veio uma luz. Sim, atravessei décadas omitindo de mim mesmo que a recompensa que eu esperava como escritor era…

Nenhuma. Isso mesmo. Nenhuma. Anos e anos para admitir que ser escritor (na minha visão) não tem nada a ver com fama ou com dinheiro, mas sim com prazer. Escrever é desgraçadamente trabalhoso, mas me traz benefícios inestimáveis. O problema é que meu prazer de escrever termina quando termino de escrever. Ou seja, todo o resto (encontrar editora, divulgar o livro, dar palestras, frequentar feiras, etc.) é totalmente desinteressante para mim.

A maioria das teorias sobre reconhecimento e recompensa pressupõe que dependemos do feedback de outros sujeitos e/ou da sociedade a qual pertencemos para adquirirmos uma indentidade. Pessoas que não obtêm recompensas adequadas em relação aos seus esforços e seus posicionamentos teriam mais dificuldade de levar adiante seus projetos e suas ideias; e a falta de reconhecimento ou o reconhecimento indevido pode distorcer ainda mais as self-stories – as histórias que a gente se conta sobre nós mesmos (e que nos definem).

O crítico interno burla a nossa percepção

O reconhecimento é uma necessidade humana vital. Inúmeros estudos descreveram como as vítimas do racismo e do colonialismo sofreram danos psicológicos graves por terem sido degradadas como seres humanos (inferiores). O reconhecimento se baseia na existência do reconhecedor, do reconhecido e do objeto do reconhecimento. Esse tema está muito associado ao mundo corporativo e à area de saúde, mas ultrapassa (e muito) esses dois âmbitos.

Viver em sociedade implica reconhecer e ser reconhecido. Porém, o primeiro reconhecimento que realmente importa não vem do outro. Vem de nós, como indivíduos. Gostar de si mesmo é o único primeiro passo possível para nos sentirmos inseridos no circuito social. Estranhamente, as pessoas com mais elevada auto-estima que conheci não tinham empregos desafiadores nem corpos esculturais nem amigos influentes. Por outro lado, lidei com gente super bem-sucedida e sem problemas familiares que se castigava diariamente, como se não merecesse existir.

Suspeito que não exista recompensa capaz de alterar permanentemente (para melhor) a lógica subjetiva interna de uma pessoa adulta com baixa auto-estima crônica. Talvez por isso o que uma pessoa com baixa auto-estima mais inveje não seja nem a riqueza nem a inteligência dos outros, mas sim a (suposta) auto-estima elevada dos outros.

Uma auto-estima elevada não se cria recebendo elogios o tempo todo ou assistindo palestras motivacionais. Antes de tudo, auto-estima não é inata, é construída. Significa que requer um esforço pessoal. Um dos principais esforços é o de silenciar o crítico interno negativo que habita em cada um de nós. Esse crítico é uma instância judicativa que questiona os nossos objetivos e os nossos valores, que tenta diminuir a nossa satisfação com o que conquistamos e insiste em nos comparar com pessoas que sequer conhecemos.

Discursos de Obama expressavam compaixão

Se não debelarmos essas “intervenções infundadas”, nenhum reconhecimento pelas nossas realizações – e, consequentemente, nenhuma recompensa – terá efeito sobre a nossa auto-estima. Quando conquistei o Prêmio Jabuti (1998), eu estava em uma fase de vida super complicada. Meu crítico interno se aproveitou disso e me infundiu ideias muito destrutivas: Ah, como é possível um escritor iniciante como você ter superado profissionais muito mais experientes? Tem alguma coisa de muito errada nisso! Ah, os critérios são tão subjetivos que qualquer um podia ganhá-lo. Ah, não vê que esse prêmio não tem credibilidade alguma? E por aí vai.

Nem tudo o que pensamos/dizemos a nosso respeito é reflexo da realidade verdadeira, porque o crítico interno está sempre pronto a desmontar nossas coerências. Na minha visão, precisamos ter em mente que o primeiro grande debate a ser vencido não é com o seu professor, nem com o seu orientador de doutorado nem com o seu chefe nem com o seu marido nem com a sua namorada nem com aquele seu colega de trabalho que defende posições políticas contrárias às suas. O primeiro grande debate a ser vencido é com o seu crítico interno. Daí vêm os próximos passos: ter compaixão por si mesmo (e pelos outros) e saber apreciar as coisas realmente valiosas da vida (para você).