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A autoajuda ajuda pouco ou nada

Estudos recentes indicaram que a autoajuda ajuda pouco ou nada. Há evidências, por exemplo, de que expressar raiva não fará a raiva passar; e que pré-visualizar metas não aumentará as suas chances de atingi-las. “Outro dado que chama a atenção é que os países ‘mais felizes’ nunca são aqueles onde a autoajuda vende mais”, afirma Oliver Burkeman em seu “Manual de Antiautoajuda“.

A autoajuda ajuda pouco ou nada
Interrogar-se sobre “como ser feliz” gera ansiedade, argumenta Oliver Burkeman, autor de “Manual de Antiautoajuda”

“Como posso ser feliz?” Você já se fez essa pergunta várias vezes, não? Mas Burkeman argumenta que não é sensato nos interrogarmos dessa maneira. Em vez disso, diz ele, deveríamos aceitar que “os nossos esforços para eliminar tudo o que é negativo – insegurança, incerteza, fracasso ou tristeza – é precisamente o que nos faz inseguros, ansiosos, indecisos ou infelizes”.

“A ARTE DE SER FELIZ”

Guarde esta frase do filósofo da contracultura Alan Watts (1915-1973): “Quanto mais você tentar boiar, mais afunda; mas quando você tenta afundar, você boia”. Watts certamente se oporia à atual onda de “otimismo mágico”. Uma referência clássica sobre felicidade é Schopenhauer [1788-1860], autor de um livrinho de cabeceira – “A Arte de Ser Feliz” -, publicado postumamente.

Esse livrinho compila 50 máximas do filósofo pessimista. Há um trecho assim: “Viver feliz somente pode ter o sentido de viver da maneira menos infeliz possível, ou, em outras palavras, viver de uma maneira suportável”. Os viciados em otimismos vazios torceriam o nariz para a mensagem de Schopenhauer de que felicidade é ilusão e, sendo assim, não deveríamos procurá-la tanto.

ABORDAGENS RISÍVEIS

Um livro que encantou os adeptos do positivismo exagerado foi “O Segredo“. Sucesso mundial (livro e filme), “O Segredo” garante que tudo o que queremos está ao alcance. “Otimismo irracional inundou o setor financeiro [em 2008]”, lembra Burkeman, “e os palestrantes e gurus de autoajuda não se fizeram de rogados para incentivá-lo. O pensamento positivo tornou-se ele próprio um negócio”.

As abordagens mais populares da autoajuda são as mais risíveis. Algumas se baseiam em “visualizações positivas” [mentalize que as coisas vão dar certo que elas darão certo] e em conceitos new age com o da “lei da atração” [visualize o sucesso para alcançar fortuna]. Físicos zombaram dessa tal “lei”. E você? Você acredita que seus pensamentos podem afetar coisas que estão fora da sua cabeça?

UM POUCO DE FICÇÃO

A autoajuda, nesse sentido, até parece ter um quê de ficção. E por falar em ficção, o romance “Ser Feliz” (2002), do canadense Will Ferguson, fez paródia irresistível sobre um jovem editor (Edwin) de uma grande editora (Panderic) que descobre e prepara a publicação de um livro de autoajuda “multidisciplinar”. Título: O que aprendi na montanha. Autor: o misterioso guru Tupak Soiree.

O livro de Tupak é uma espécie de pastiche. Feito às pressas, ele toca superficialmente em assuntos diversos, misturando filosofia moral budista com capitalismo em estilo libertário. “É terra-a-terra. E pretensioso. E banal. Tudo isso e muito mais”, acredita o personagem Edwin. Divertido e devastador, “Ser Feliz” satiriza a mitologia da realização pessoal e de seus exploradores comerciais.

A autoajuda ajuda pouco ou nada
Acredita que seus pensamentos podem afetar coisas que estão fora da sua cabeça?

OTIMISMO IRREFLETIDO

Já o “Manual de Antiautoajuda de Burkeman é uma análise mais metódica do fenômeno do culto ao otimismo irrefletido. A hipótese: o positivismo é um feitiço que acaba tendo o efeito inverso do esperado. Jornalista especializado em psicologia, Burkeman revisita filósofos estoicos, budistas, consultores obcecados por metas e pensadores que duvidam de que “somos o que a nossa mente é”.

Os estoicos argumentavam que só o ser humano recebeu da Natureza o dom do raciocínio, e que o estado mental ideal é a tranquilidade. Isto, aliás, é o oposto da animação excitada dos positivistas quando falam de felicidade. Para os estoicos, a única coisa que podemos controlar são os nossos juízos a respeito do mundo, não o mundo em si, claro.

METAS E OBJETIVOS

Já os budistas acham que a raiz de todos os sofrimentos é o apego. O fato de desejarmos certas coisas, e de odiarmos ou não gostarmos de outras, é o que motiva a atividade humana. “Porém, em vez de desfrutar de coisas prazerosas quando ocorrem e vivenciar o desprazer da dor, criamos o hábito do apego e da repulsa. A dor é inevitável, mas o sofrimento é resultado de nossos apegos.”

Outro alvo do “Manual de Antiautoajuda” são as pessoas obcecadas por metas e objetivos. Vocês já devem ter conhecido (ou ouvido falar) de gente assim. A paixão por metas e objetivos tem sido amplamente explorada pela autoajuda. Mas a tão falada importância de estabelecermos planos detalhados para nosso futuro pode nos levar a uma aversão à incerteza, adverte Burkeman.

“A busca pela certeza bloqueia a busca pelo sentido. A incerteza é a própria condição que impele o homem a desenvolver seus poderes”, escreveu o psicólogo social Erich Fromm. “É na incerteza que as coisas acontecem. É nela que as oportunidades – de sucesso, de felicidade, de uma vida plena – estão à espera”, Burkeman acrescenta.

UM CONCEITO DE “EU”

A autoajuda, na verdade, se dirige a um eu, e a existência do eu é um fato  normalmente aceito pelo senso comum sem questionamentos. Mas o filme “Matrix” (1999) levantou uma questão filosoficamente fascinante: como eu posso ter certeza de que o mundo não é uma sofisticada charada criada por uma inteligência sobre-humana de modo que eu não perceba o truque?

A autoajuda ajuda pouco ou nada
Ao que parece, os gurus trabalham com um conceito de eu que não resiste a um exame mais atento

Ao que parece, os gurus trabalham com um conceito de eu que não resiste a um exame mais atento. As neurociências têm mostrado que não há no cérebro um centro onde todas as coisas se juntam e formam isso a que chamamos eu. Porta-vozes da autoajuda, aliás, geram paradoxos incríveis: misturando eu com ego, afirmam que viver a serviço do ego não pode nos tornar felizes.

Ora, a abordagem da felicidade focada no otimismo e obcecada por metas é exatamente o tipo de coisa que o ego adora. O pensamento positivo, lembra Burkeman, é “uma questão de desejar um futuro feliz ou bem-sucedido, o que reforça de maneira sutil a mensagem de que a felicidade está em outro momento, não no presente”. Agora reflita: pode haver um “você” sem “todo o resto”?