O sentido da vida é a vida com um sentido

Ontem à noite (11/8) fui com Patrícia e amigos a um lugar alto e escuro em uma das colinas que circundam Firenze para observar estrelas cadentes. Os astrônomos haviam dito que este ano (2018) a visibilidade seria “extraordinária”, por causa da ausência da lua. As Perseidas (chuvas de meteoros) estão geralmente associadas à noite em que se festeja o Dia de San Lorenzo (10 de agosto). Não por acaso, essa data entrou para a história como o Dia das Lágrimas de San Lorenzo. No entanto, este ano, o período de maior visibilidade caiu entre 11 e 13.

As “lágrimas” caem quando a Terra atravessa um rastro de meteoros. O rastro é denominado Nuvem Perseida e estende-se ao longo da órbita do cometa Swift-Tuttle. A nuvem consiste em partículas ejetadas pelo cometa durante a sua passagem perto do sol. A gente se deitou no chão em posições diferentes e, dentro do possível, ficamos em silêncio. Do ponto onde eu estava, testemunhei o risco luminoso de vários meteoros. Lindos traços de luz alaranjada no céu mega estrelado.

Mesmo não sendo capaz de ver a olho nu mais que umas 3.000 estrelas (a Via Láctea, nossa galáxia, possui 300 bilhões delas), desfrutei de uma deleitante sensação de entorpecimento e magnificência. Aliás, momentos como este, em que me sinto minúsculo diante do Universo, em geral me fazem muito bem. Além de me colocarem em contato com o centro do meu ser, trazem de novo à tona uma pergunta intrigante que quase todos nós (nos) fazemos: Qual é o sentido da vida?

O sentido da vida seria determinado por nós mesmos, cada qual à sua maneira

A filosofia afirmaria certamente que nada possui sentido em si, e que o sentido da vida seria determinado por nós mesmos, cada qual à sua maneira. Uma resposta científica a essa questão poderia parecer um pouco assustadora. Para a ciência, o sentido da vida é a morte. Vida, aos olhos da ciência, é um processo bioquímico que permite a um organismo assumir formas e dimensões variadas. A morte, não. A morte é uma situação na qual algum processo fisiológico ocorreu de modo diferente do que “deveria ter ocorrido”, criando um caos interno que leva à interrupção das conexões. Enquanto a vida se dá pelo ordenamento bioquímico, a morte se dá pelo seu contrário.

O mais interessante, porém, foi descobrir que experiências como a que tive com as chuvas de meteoros são valiosas não apenas para o deleite contemplativo momentâneo, mas também por outras razões. Ou seja, ter vivências diretas em relação ao sentido da vida pode impactar positivamente o cotidiano e gerar muitos benefícios. Estudos neurocientíficos comprovaram que quem acredita que a própria vida possui um significado (qualquer que seja) é mais feliz, mais otimista, mais bem integrado à sociedade e mais capaz de enfrentar o estresse diário.

Uma existência rica de significado tem também efeito protetor sobre a saúde. Pessoas de todas as idades que participaram dessas pesquisas apresentaram um risco de mortalidade menor, com menos chances, por exemplo, de enfartar, sofrer derrame ou desenvolver demência; os processos inflamatórios que causam doenças crônicas ou degenerativas também se reduzem.

O desejo de doação ao outro é universal

Num primeiro momento, a chamada Psicologia Positiva tratou de individuar o que faz as pessoas “felizes” (a propósito, a maioria desses estudos indicou que dinheiro não é o fator principal). Mas o centro das atenções mudou. Os pesquisadores agora estão tentando entender sobretudo como as pessoas atribuem sentido às suas vidas e como pensam poder atingir essa tal condição.

O sentido da vida seria reconhecível por quatro características: a significação, o pertencimento, a coerência e a orientação. A significação indica se aquilo que fazemos é relevante; o pertencimento é a sensação de ter um lugar no mundo; a coerência é aquilo que nos faz crer que existe alguma lógica no que fazemos; e, por último, a orientação é a clareza sobre os valores e os objetivos que devemos perseguir.

Tatjana Schnell, da Universidade de Innsbruck (Áustria), é uma das estudiosas que está tentando enfrentar a questão do sentido da vida por um prisma científico. Segundo ela, uma das principais fontes que dão sentido à vida das pessoas (entrevistadas) é o que ela chama de “generatividade” – quando alguém realiza alguma coisa de útil para a posteridade ou para o Todo.

Por exemplo: transmitir os próprios conhecimentos e competências aos outros, atuar como voluntário em algum projeto social ou se empenhar no aperfeiçoamento de políticas públicas. Interessante é que essas atitudes, digamos, de doação são universais. Estudo conduzido por Jan Hofer, da Universidade de Trier (Alemanha), feito com pessoas de 60 a 90 anos de idade, mostrou que isso é importante seja onde for.

A necessidade de cuidar, a espiritualidade e a religiosidade, a aspiração à harmonia e o desejo de aperfeiçoamento pessoal são motivações da espécie humana, ao que parece, independentemente de nacionalidade ou identidade cultural. O bem-estar psicológico e o nível de satisfação com a própria vida dependem de ações que vão além da autorrealização; que vão além da luta por liberdade individual, poder e dinheiro.

A relação felicidade-sentido é complicada

Outro dado interessante é que existem pessoas que não veem sentido em suas vidas e tampouco experimentam crises por causa disso. Quase a metade dos jovens alemães, por exemplo, são “existencialmente indiferentes”. Significa que, além de terem pouco controle sobre suas vidas, sentem-se inadequados às exigências da era pós-moderna, criando certa apatia que os impede de enfrentar da busca por satisfação e sentido.

A indiferença existencial, aliás, comprova o quão complicada é a relação entre felicidade e sentido. A psicologia experimental está demonstrando, pouco a pouco, que a joie de vivre por si só não basta para alguém se considerar realizado. A (ideia de) felicidade gera efeitos maravilhosos em quem a sente, mas não altera de modo marcante e duradouro as práticas cotidianas e tampouco garantem longevidade.

Sendo uma situação passageira, a (ideia de) felicidade precisa estar inserida em um contexto maior. Segundo um estudo de Jinhyung Kim, da Universidade do Texas A&M, as pessoas interessadas em compreender o seu “verdadeiro eu” são mais propensas a desejar “experiências diferentes”, como ir a um concerto, viajar ou jantar em um restaurante, por exemplo, em vez de comprar bens de consumo.

A cultura e a sociedade têm papel importante. Um estudo comparativo (2014), realizado por Shigehiro Oishi e Ed Diener em 132 países mostrou que os cidadãos de países pobres fazem mais referência ao sentido da vida do que os cidadãos de nações altamente industrializadas. Pessoas que precisam lutar pela sobrevivência tem menos dúvidas quanto ao sentido da vida, porque é absolutamente claro o que devem fazer e por quê.

A autorrealização pode estar no “tempo livre”

Por outro lado, as pessoas mais preocupadas com o sentido da vida se frustram com maior facilidade em relação às suas próprias ações. No âmbito do trabalho (a atividade pela qual somos remunerados), isso é muito comum entre médicos e enfermeiros. “O fato é que poucas atividades profissionais podem realmente dar sentido à vida de uma pessoa”, diz Tatjana Schnell. Me arrisco a dizer que o jornalismo não é uma delas.

O mais importante, porém, é que talvez seja mais saudável não buscar a autorrealização no trabalho, mas sim buscá-la no “tempo livre”, mais ou menos como estou tentando fazer agora, escrevendo sobre o que gosto dentro das minhas (limitadas) possibilidades de tempo e talento. Durante um tempo acreditei na escrita como carreira profissional, mas hoje penso diferente: a escrita é apenas um modo muito pessoal de se comunicar.