O insidioso ciclo da culpa

E chegou o dia de publicar aqui no blog; e eu de ressaca, abatido por notícias políticas desmotivantes vindas do Brasil e a pressão baixa por causa do calor debilitante do verão em Firenze. Depois de horas de conflito entre o “relaxe, escreva quando puder” versus o “você não pode interromper a periodicidade (sic) do seu blog”, me dei conta de que pelo menos o assunto eu tinha: a culpa, ou melhor, o sentimento de culpa. Afinal, era o que estava sentindo: culpa por não ter me superado durante a atribulada semana anterior e trabalhado o texto do jeito que gosto: pouco a pouco, frase por frase, até as ideias se encaixarem (todas) como em um puzzle.

O assunto me interessa desde os tempos em que o ambiente em que eu vivia deu início à configuração desta memória que ainda possuo e que dá sentido à minha vida. Me interessa também porque o sentimento de culpa cria um círculo vicioso desorientador. Não importa o que você tenha feito ou deixado de fazer, não importa o que você tente fazer para atenuá-lo, o sentimento de culpa está em você. Mesmo seguro de não ter cometido nenhum crime, mesmo consciente de que se sentir culpado não resolve nada (muito pelo contrário), ele está em você.

Assim como sentimos prazer e dor, sentimos culpa, e nunca nos livraremos definitivamente desse sentimento. [Os psicopatas não o têm nem mesmo quando violam o Código Penal. Já nós, os “normais”, sofremos com as consequências do que acreditamos que devíamos ter (ou não ter) feito.] O sentimento de culpa decorre de uma convicção quase sempre injustificada de estarmos causando danos (materiais ou psicológicos) a alguém. Esse alguém pode ser até um cão ou um gato, mas, na maioria dos casos, é um indivíduo humano.

O sentimento de culpa está associado ao medo de punição e à vergonha

Uma vez instalada a culpa, todas as nossas ações (assim como as nossas inércias) acabam levando a uma única conclusão: a de que continuamos nos sentindo culpados. O ciclo da culpa é composto por três elementos, segundo especialistas: 1) O “eu devia”; 2) A atitude ou a falta de; 3) E o sentimento de culpa em si. Os três se retroalimentam, mas, em nome da clareza, digamos assim: tudo começa quando sentimos a culpa. Senti-la significa ficar batendo sem parar a tecla do “eu devia”.

  • devia ter ido;
  • devia ter telefonado;
  • devia ser mais generoso;
  • devia ir ao médico;
  • devia perder peso;
  • devia ter publicado este post na data programada;
  • devia me sentir menos culpado;
  • etc., etc.

Na prática, esse “eu devia” é a manifestação de um desejo, o desejo de conquistar e manter a aprovação dos outros em relação a quem somos ou o desejo de conquistar/manter uma auto aprovação. O problema é que enquanto nos sentimos culpados e dizendo que devíamos ter feito isto ou aquilo nós paramos de viver a nossa vida segundo nossas próprias orientações e começamos a viver em função do “objeto causador” da culpa. A gente se sente culpado por milhares de coisas, mas, resumidamente, nos sentimos assim:

  • por alguma coisa que fizemos;
  • por alguma coisa que não fizemos, mas queríamos ter feito;
  • por alguma coisa que acreditamos (não) ter feito;
  • por não termos ajudado alguém o suficiente;
  • por acreditarmos que somos melhores do que alguém.

Em um nível profundo, podemos afirmar que trazemos dentro de nós o medo da punição, que nos parece real porque foi internalizado. E como nós o internalizamos? Através dos nossos convívios com pessoas que têm (ou tiveram) um papel significativo em nossas vidas. Não necessariamente pai e mãe. Ou não somente pai e mãe. O sentimento de culpa existe – e é horrível, quando excessivo – por dois motivos tão óbvios quanto preteridos: 1) Nenhuma forma de amor é incondicional; 2) A gente tem dificuldade em aceitar isso e em aceitar como somos.

A culpa e a auto aceitação estão coligadas

Sentimento de culpa e auto aceitação, aliás, estão intimamente ligados. Em relacionamentos aos quais damos importância, temos sempre que fazer alguma coisa pelo outro para que ele/ela nos ame. Se os desejos do outro (ou o que pensamos serem os desejos do outro) não forem atendidos, o amor e a aprovação não se realizam e a gente fica mal. Dito de outro modo: sentir-se culpado nada mais é do que arrastar consigo o peso da bagagem emocional do outro, como se já não bastasse o peso da nossa própria bagagem emocional.

As consequências dos dilemas e contradições relacionados à culpa podem ser muito graves. O sentimento de culpa decorre não apenas do medo de punição, mas também da vergonha. E ambos podem nos imobilizar; ambos podem levar a ruminações excessivas, e isso é poderosamente destrutivo. Estudos mostram que o ressentimento (a ruminação) é um dos pilares da depressão, clinicamente falando. E a gente não rumina somente sobre as águas passadas ou o sexo dos anjos. Ruminamos também sobre o que sequer aconteceu.

E como enfrentamos as culpas? Assim: evitando tomar a atitude pretendida ou fazendo esforços para manter certa estabilidade no relacionamento; pedindo desculpas, por exemplo, ou tentando expiar o mal que acreditamos ter causado. Na ficção, um exemplo espetacular de abordagem do tema do sentimento de culpa é o romance “Reparação”, de Ian McEwan. A primeira metade do livro é uma descrição detalhada de um único dia, durante o qual um evento mudará o destino de várias pessoas irreversivelmente.

Pesquisas indicam que as mulheres sentem mais culpa que os homens

A personagem narradora é Briony Tallis, membro de uma família aristocrática inglesa. Aos 13 anos, a criativa e intrometida Briony adotara uma categórica posição de testemunha ocular em um ambíguo episódio de violência sexual praticado contra sua prima Lola. Isso, nos anos 1930. Resumindo: sua atitude leva à injusta prisão do filho (Robbie) da empregada da casa. Mais: seu erro põe fim ao sincero amor que existia entre Robbie e Cecilia, irmã mais velha de Briony. Por fim, vem a Segunda Guerra e a família se desintegra completamente.

A narrativa de Briony não repara coisa alguma, ao contrário do que o título do livro pode lhes fazer crer. O mal que ela causou não tem conserto. Ao contar a história (para si mesma) o que ela faz é tentar (já em idade avançada) expiar o sentimento de culpa que a corrói. Um livro imperdível. Mas voltando ao ponto central: o mal que pensamos ter causado a alguém pode ter sido causado de fato, como no caso de Briony, mas em muitas situações a culpa reside unicamente na mente do culpado. É a culpa que independe da culpa.

Well, você, tanto quanto eu, sabe, por experiência própria, que o sentimento de culpa produz estresse e desatenção. Agora vamos tentar inverter tudo. Tente imaginar como seria o mundo se ninguém sentisse culpa. Olha, acho que a vida sem esse sentimento poderia ser mais insuportável do que o sentimento em si. Primeiro, não haveria censuras nem meios-termos. Qualquer um poderia chegar para você e, em vez de dizer “você fica muito bem de calça jeans”, dizer-lhe “a verdade”: “Você tem um corpo tão horrível que nenhuma roupa fica bem em você”.

Harvey Weinstein : como estará se sentindo?

Qualquer um poderia chegar para você e lhe dizer, na lata, que você é: incompetente, imbecil, narcisista, medíocre, etc. Escolha você o adjetivo (negativo). Já pensou? Seria a barbárie (risos). Ou você acha que as pessoas atingidas por esses tais golpes certeiros de franqueza iam deixar por menos? Infelizmente, assim como o certo não existe sem o errado, não podemos existir sem sentimentos de culpa. Por quê? Ora, porque o sentimento de culpa ajuda a proteger, manter e aperfeiçoar os nossos relacionamentos. Ou seja, ele tem uma função. Na verdade, várias.

Nem todas as suas funções são nocivas ou horripilantes. Quando relacionado ao altruísmo e à empatia, por exemplo, ele pode ser construtivo. Se o sentimento de culpa não existisse de forma alguma, Cristiano Ronaldo e Bill Gates não doariam quantias generosas para promover o bem comum – sim, a filantropia decorre do sentimento de culpa! Então, embora esse sentimento não possa ser banido completamente da nossa existência, embora ele torne a vida mais difícil (reduz a concentração, o prazer e a criatividade) precisamos nos esforçar para tentar minimizá-lo.

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