Estagiário depois dos 50

Já contei por que passei dois anos sem escrever e como vim parar na Itália. Fiz também um resumo de como surgiu o “Repensando Atitudes” e detalhei a minha visão de mundo como escritor. Então, encontrar um apartamento no centro histórico de Florença e enfrentar a burocracia italiana para me estabelecer aqui não foi nada fácil. E ainda tive que encarar aquele meu problema de sempre: grana curta. Vida de escritor é instável. Ter poupança é imperativo. Mas acaba. Como tudo. Daí que tive de ser estagiário depois dos 50 (risos). Explico.

Estagiário depois dos 50
Em Florença: indo trabalhar como “estagiário” (risos)

RESEARCH FELLOW

Eu tinha chegado aqui como research fellow na Università di Firenze (Unifi) e tinha mesmo um projeto de pós-doutorado bem sólido (tenho ainda, aliás). Mas eu não estava a fim de ter vínculo institucional. Queria fazer a pesquisa a meu modo e publicá-la em forma de livro (já tinha até título).

No primeiro dia de conversa com o pessoal do “departamento” (detesto essa palavra), abri o jogo. Disse que a única coisa que eu precisava era de livre acesso à biblioteca da faculdade de ciências sociais. Eles preferiram negociar: me dariam acesso mas eu teria que participar das reuniões do “departamento” e “dar umas aulas grátis”.

Respondi que topava a proposta, se me ajudassem a obter uma bolsa. “Bolsa para pós-doutorado é impossível”, me disseram. “Não temos pós-doutorado aqui.” Dar aulas não estava nos meus planos. Muito menos dar aulas de graça.

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TURISMO E TURISTAS

O que fiz? Bati na porta de uma empresa de gestão de imóveis para fins turísticos. Tinha visto um folder deles em um bar de Florença, por acaso. E me ofereci para ser recepcionista de turistas. Sim, era diferente de tudo o que eu já havia feito, claro.

Fui topógrafo, projetista, bancário, repórter, editor, pesquisador freelancer, biógrafo, professor universitário, etc., mas recepcionista de turistas era o que eu sabia que eles estavam precisando, e fui em frente.

Imagine a reação do cara diante do meu CV recheado de realizações e do meu italiano rudimentar, na época. E ainda por cima “um candidato” com mestrado e doutorado!? Daí me ofereci para trabalhar quase de graça por três meses (tipo estagiário), para aprender o “mestiere”.

ENTRE “ANORMAIS”

Para minha sorte, o sujeito que me atendeu era tão “anormal” quanto eu. Me achou “diverso”. A função tinha o nome pomposo de “greeter”. Greeter é quem dá as boas vindas; quem apresenta a cidade aos recém-chegados. Tudo em inglês.

Era esse o lado bom do que eu fazia, aliás. O lado ruim: o contato direto com os clientes podia ser estressante quando algo dava errado ou quando as pessoas eram do mal. Apanhei muito. Era um trabalho físico também: girar pela cidade de bike.

Me fez um bem enorme. Entre outros benefícios, perdi alguns quilos e ampliei minha visão sobre a cidade em que eu morava. Passei no teste para “estagiário” (risos). Na alta temporada, trabalhei dia e noite recebendo turistas do mundo todo em aptos chiques alugados via internet.

Estagiário depois dos 50
San Pellegrino in Alpe, nos Apeninos Toscano-Emilianos: montanhas me inspiram

MAIS MUDANÇAS

O mais importante daquela atitude não foi apenas atingir o objetivo central ($), mas desmontar alguns padrões mentais meus. Rompi com alguns condicionamentos, como “intelectuais deveriam ser assim assado”, noções meio rígidas de status quo (típicas de um ex-morador de São Paulo), ter empregados domésticos, etc.

Reformatei meu HD interno (risos). Daí veio a pandemia e… o turismo… você sabe. Pela enésima vez tive que cortar custos o máximo possível. Eu e Patrícia fomos forçados a mudar de apto e ficamos a maior parte do período julho/2020-maio/2021 presos em um apto minúsculo.

As restrições de movimento e o dia a dia apertado nos levaram a vislumbrar outra mudança. Viemos para os Apeninos Toscano-Emilianos. Com a maturidade (tenho 55 anos neste 2021) e a pandemia, tornou-se imperativo morar “ao aberto”. Montanhas me confortam e me inspiram desde sempre. Te conto mais no próximo post.

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