Maldita zoeira onipresente

O Centro Histórico de Florença (Quartiere 1) tem cerca de cinco quilômetros quadrados apenas, mas dentro dessa área vivem 67 mil habitantes – destes, 15 mil são estrangeiros. Para os padrões brasileiros, é uma aglomeração de cidade pacata. Mas a movimentação de pessoas na região é incrível. Além dos residentes, circulam por aqui 10 milhões de turistas entre março e novembro.

Significa que, nessa época, em um círculo de mais ou menos 2,5 quilômetros de diâmetro encontram-se 400 mil pessoas, sem contar os “pendolari” (cidadãos que moram em outros bairros ou em outras cidades da região metropolitana mas trabalham no centro; nessa época, não é fácil encontrar espaço nas ruas principais nem para transitar com a bicicleta. Você tem de pedir licença para passar.

Daí que é como uma lei da física: onde há grande aglomeração de gente disposta a se divertir, há também confusão. Mais que isso: há muito barulho – não tanto de automóveis, porque o centro histórico é uma Zona de Tráfego Limitado (ZTL). Falo de barulho de gente mesmo, de gente falando alto, em mesas sobre as calçadas e em eventos a céu aberto, principalmente na primavera e no verão.

Quanto mais alto o ruído, mais a gente precisa lutar para se proteger dele e sobreviver

Mas aonde quero chegar, afinal? Na importância do silêncio para a saúde. Quem aprecia silêncio e tranquilidade deveria preferir viver bem longe do tal Quartiere 1 de Firenze. No entanto, moro no Quartieri 1. Eu, que sempre evitei lugares sobrecarregados de humanos, seja onde for; eu, hiper sensível a barulho; eu, que sempre tive dificuldades para dormir e estabilizar o sono. Calma, você vai entender.

Por outro lado, estava acostumado com o que há de pior em termos de sossego. Vim de São Paulo, onde o silêncio é uma commodity cada vez mais rara (e cara). A maior cidade da América do Sul tem trânsito insano, construções, reformas, aparelhos de ar-condicionado, exaustores, festas dos vizinhos, TVs falando para ninguém, aviões, helicópteros, etc., etc. Ou seja, comparada com São Paulo, Florença é uma vila.

Mas o tamanho não importa.

Importa que qualquer sonoridade indesejável tem impacto na saúde e nos batimentos cardíacos.

Em um concerto de rock, por exemplo, os fãs estão expostos a pelo menos 100 decibéis, nível considerado altíssimo, mas nem pensam em barulho. Agora imagine uma pessoa que mora a três quadras do local do concerto e está tentando ler um livro? Essa pessoa não conseguirá se concentrar e o simples fato de ser obrigada a pensar na barulheira lhe desencadeará reações orgânicas sérias.

Sabe aquele zumbido que gruda no seu ouvido depois que você sai de um bar lotado, onde as pessoas falam mais e mais alto sem se darem conta do volume da música ao fundo, que não é pouco? Pois é: “A exposição a altos níveis de ruído causa danos permanentes à audição”, afirma Mathias Basner, professor do departamento de psiquiatria da Universidade da Pennsylvania (Perelman School of Medicine).

Um dos efeitos importantes do barulho é prejudicar a comunicação, lembra-nos Basner. Quanto mais alto o ruído, mais a gente precisa levantar a voz para se fazer entender. [A propósito, estudos mostraram que crianças que frequentam escolas em áreas barulhentas são mais propensas a ter baixo desempenho escolar.]

Zoeiras inaceitáveis afetam não apenas os ouvidos, mas também o sono. Ruído provoca estresse, principalmente quando não temos nenhum controle sobre a situação: “Se seu quarto de dormir é atingido por barulheira permanente, você pode demorar mais para adormecer e acordar com facilidade. Sendo assim sua pressão arterial não baixa o suficiente durante a noite e você acorda com uma horrível sensação de exaustão”.

E como saber se o “alto” é na verdade “alto demais”? Quando está “alto demais” você começa a mudar o seu comportamento: tem de aumentar o volume da sua TV por causa do ruído que vem lá de fora; tem de evitar as áreas externas ou fechar as janelas (mesmo no verão tórrido); tem de mudar o seu quarto para um ponto mais protegido (mesmo que seja na sala); fazer orçamentos de janelas antirruído (que custam caro); usar tampões nos ouvidos (pouco eficazes).

[Além desses paliativos, Basner sugere dialogarmos com as crianças, explicar-lhes as futuras consequências de ficar o dia inteiro acoplado a headphones cuja sonoridade explosiva pode ser ouvida até pelo passageiro ao lado no ônibus.] Mas, dependendo do grau do seu problema, você talvez deva pensar mesmo em mudar-se para outra casa, priorizando o silêncio e a tranquilidade.

Zoeiras inaceitáveis afetam não só os ouvidos, mas também o sono e o coração

Como nos processos industriais carbon free, devemos dar atenção aos produtos noise free também. Se você está pensando em comprar um novo carro, um novo liquidificador ou um novo aparelho de ar condicionado, por exemplo, considere o nível de ruído tanto quanto a eficiência energética. Porque, reconheçamos, endurecer a legislação não é fácil.

Em relação a este ponto, não me esqueço do filme “Noise – Passando dos Limites” (2007), em que o personagem vivido por Tim Robbins está prestes a enlouquecer com o barulho onipresente em Nova York e decide agir calculadamente para resolver o problema à sua maneira, contrariando a apatia dos agentes municipais, que deveriam monitorar/mitigar o problema.

A maioria das atividades geradoras de ruídos acima do aceitável gera empregos e renda (um aeroporto, por exemplo), atenuando ou impedindo as punições previstas por lei. Quanto a mim, não enfrento problemas com ruídos indesejávais, no momento. O meu microapartamento no Centro Histórico de Florença dá para os fundos. Sim, encontrei um cantinho blindado bem no meio da zoeira. [Fácil entender por que sempre preferi os fundos à frente, não? (Risos.)]

Mas o fato que você não pode perder de vista é o seguinte: ouvidos zumbindo é sinal de que a cóclea esteve exposta a altos níveis de ruído e as consequências maléficas disso são cumulativas. Então, registre na sua memória a frequência com que você sente o seu ouvido zumbir. O que parece normal (uma loja de roupas tocando música alucinante até dentro do provador), não o é.

Sergio Vilas-Boas

Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e professor. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo" e "A Superfície Sobre Nós" (romance). Mora em Florença. Mais informações: http://www.sergiovilasboas.com.br

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