Sem a mentira a verdade não existiria

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A frase “everybody lies”, dita pelo politicamente incorreto Dr. House no primeiro episódio do seriado, em 2004, não virou mania por acaso. Mentir é tão humano quanto errar, mas a mentira está entre as mais sofisticadas realizações do nosso cérebro, além de ser um componente importante do nosso comportamento. Mais: sem a mentira a verdade não existiria; sem a mentira talvez a vida em sociedade fosse insuportável ou sem graça

Sem a mentira a verdade não existiria
Os detectores de mentiras foram muito usados nos tribunais dos Estados Unidos

Tente imaginar as pessoas dizendo somente aquilo que pensam ser a verdade sobre elas mesmas, sobre você, sobre o mundo. Viveríamos no limite entre a idiotia e a barbárie ou finalmente conheceríamos a essência do prazer? [Detalhe: pessoas com Mal de Parkinson tendem a perder a capacidade de mentir, e isso muitas vezes constrange quem não as conhece, porque ouvir a verdade somente a verdade nada mais que a verdade pode ser uma experiência chocante.]

COMO SABER?

No dia a dia, mentimos para agradar, escapar, obter, etc. O problema é saber quando uma pessoa está mentindo ou não. Os polígrafos ainda estão longe da exatidão desejada e a técnica da Imagem por Ressonância Magnética Funcional (fMRI, na sigla em inglês) é apenas incipiente. No entanto, apesar dos obstáculos e dificuldades, os cientistas que estão mapeando o funcionamento cerebral conseguiram um progresso considerável nos últimos anos.

Descobriram, por exemplo, que a mentira praticada por crianças de 4 a 6 anos é sinal de que elas já dominaram duas habilidades cognitivas importantes: 1) A capacidade de reconhecer e compreender as regras sociais e as possíveis consequências de desrespeitá-las; 2) A capacidade de imaginar o que o outro está pensando (por exemplo, quando percebe que foi vista pegando o último bombom, a criança sabe que a mãe não vai acreditar em nenhuma desculpa esfarrapada).

TRANSGRESSÃO

Nos primeiros anos, as crianças têm dificuldade de formular mentiras verossímeis, mas estudos feitos nos Estados Unidos e na Holanda mostraram o quanto essa competência melhora com o tempo, até começar a involuir a partir dos 45 anos de idade. Esses mesmos estudos indicaram que, em termos cognitivos, dizer a verdade é mais fácil do que mentir, porque a mentira exige recursos bem mais sofisticados. Alguns desses recursos:

  • O mentiroso tem de estar consciente de que a mentira é a transgressão de uma norma social;
  • Para ser capaz de contar uma história mentirosa é preciso conhecer a versão verdadeira;
  • A mentira tem de ser construída de maneira consistente, sem contradições;
  • As reações do ouvinte durante a narrativa devem ser avaliadas com exatidão, para que o roteiro original possa ser readaptado.
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A óbvia frase “everybody lies” (“todo mundo mente”), dita pelo Dr. House no seriado, virou mania
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OS MECANISMOS

A invenção do polígrafo, um século atrás, mostrou que somos mais competentes em criar mentiras do que em detectá-las (risos). O equipamento era rudimentar, mas, com o surgimento de novas descobertas em laboratório, ele foi sendo aperfeiçoado. Descobriu-se, por exemplo, que os mentirosos:

  • ficam mais tensos ao contar histórias que não foram de fato vividas;
  • eliminam detalhes inusitados que certamente teriam sido incluídos em formulações honestas;
  • corrigem-se menos durante a narrativa;
  • constroem uma sequência de episódios tão sólida que gera dúvidas.

Nos Estados Unidos os tribunais rejeitaram como prova judicial os detectores de mentiras que utilizam a técnica da Imagem por Ressonância Magnética Funcional (fMRI, na sigla em inglês), argumentando que a eficácia desse método ainda não foi suficientemente documentada.

FINGINDO SER

Embora o processo de tentar entender o mecanismo da mentira tenha avançado muito nos últimos anos, o que se sabe ainda é pouco para identificar com segurança um mentiroso. Um estudo concluiu que diante de um mentiroso a nossa margem de acerto é de cerca de 54%, em média. Parece um índice elevado, mas é pouco maior do que adivinhar (risos).

E se você pensa que o percentual de acerto é muito maior entre profissionais que lidam diariamente com enganadores – caso de policiais, juízes, psicólogos, corretores de seguros -, você está enganado. A dificuldade é praticamente a mesma. Ao que parece, os mentirosos são hábeis na arte da reinvenção. Reinventam-se a si mesmos.

O fato é que ainda está longe de existir uma máquina que leia pensamentos e capture no cérebro o exato momento da construção de uma mentira. Enquanto isso: 1) Os membros da mais prodigiosa categoria de mentirosos – a dos políticos – continuam fingindo ser o que nunca serão; e 2) A conversa fiada continua sendo um dos traços culturais mais marcantes da nossa cultura.

/// Se você curte escrever mas nem sabe como começar, leia isto. ///

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Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e tradutor. Apaixonado por artes e psicologia. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros" e "Biografismo". Mora em Florença, Itália. //// Journalist, writer, and translator. Loves arts and psychology. Author of "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo", and other books. Lives in Florence, Italy: https://sergiovilasboas.com.br ///// [email protected]

  1. Olympio Pinheiro

    Caro Sérgio, é muito oportuno o seu texto, sobretudo nos dias de hoje em que todos se confrontam nas redes digitais sociais, digladiando com verdades e mentiras, com o que se sabe, o que se não sabe e o que se finge ou não saber.
    Como sabemos (risos!), a mentira é uma transgressão social, por vezes aceitável, por vezes reprovável, mas imprescindível à condição humana. Não que se defenda, posto isto, a partir por aí mentindo para toda a gente, para assim poder pertencer ao gênero humano.
    Não obstante, uma das faculdades humanas, a linguagem verbal (altamente elaborada), é uma mentira, segundo a famosa expressão do semioticista Umberto Eco.
    E porquê? A linguagem é uma realidade vicária, está no lugar de, isto é, representa sempre um objeto ausente (entendendo objeto como tudo o que possa existir no mundo físico ou na inaginação do sujeito). Ou seja, finge que está presente algo ausente.
    A acreditar em Fernando Pessoa, entre os maiores mentirosos certamente se contariam os artistas, particularmente os poetas. Já que em sua auto-psicografia (ortónima) revela que o poeta é um fingidor, que finge até o que deveras, na verdade, sente.

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