Grosserias se propagam como vírus

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Grosseria, rudeza, hostilidade, estupidez, incivilidade, agressividade, desrespeito, não importa o termo, o fato é que a falta de educação alheia afeta todos nós, direta ou indiretamente, afirma Danny Wallace, escritor e ator inglês. Em seu livro “F. You Very Much: Understanding the Culture of Rudeness and What We Can Do About It”, Wallace mostra que as grosserias se propagam como vírus, induzem à má educação e podem causar acidentes fatais.

Grosserias se propagam como vírus

INDUÇÃO

Uma série de estudos (2015) conduzidos por Trevor Foulk e seus colegas da Universidade da Flórida demonstrou que ser alvo de uma atitude grosseira, ou simplesmente testemunhar uma, induz à falta de educação. “Quanto mais assistimos a episódios de incivilidade, mais nos tornamos portadores do tal vírus, que penetra em nosso inconsciente, a ponto de nos deixar suscetíveis tanto em perceber quanto em expressar rudezas”, diz Foulk (citado no livro de Wallace).

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As grosserias, tão gratuitas quanto injustas, derrubam psicologicamente a pessoa alvo do ataque e não há autoestima que resista. Observe como você fica depois de ter sofrido uma. Perceba o estrago que ela faz no seu raciocínio. Você fica desconcentrado(a), sentindo-se impotente (ou mesmo inferior) e alimentando desejos de vingança. Daí até perder o sono é um triz. Passamos o dia seguinte atordoados, irritáveis, dispostos a agir grosseiramente, “se necessário” (sic).

EFEITO VIRAL

O efeito viral da grosseria pode ser prolongado e altamente destrutivo. Por exemplo, quando um cirurgião sofre um ataque verbal dos familiares de um paciente são enormes as chances de isso afetar negativamente as cirurgias seguintes. A propósito, uma pesquisa da John Hopkins University analisou 250 mil mortes causadas por falha humana e chegou a uma conclusão estarrecedora: em 40% daqueles casos os médicos haviam sido massacrados por um chefe, um colega ou mesmo um paciente.

Acidentes graves podem ocorrer também quando idiotas agridem gratuitamente motoristas de ônibus, pilotos de jatos, psicólogos, assistentes sociais, dentistas, enfim, gente em cujas mãos o nosso destino é temporariamente confiado. “Ser contagiado por grosserias é tão fisiológico quanto inevitável”, escreve Wallace. “Basta receber um comentário hostil de repente em seu celular ou ler um post infame nas redes sociais e o seu humor pode ser imediatamente destruído.”

IMUNIDADES

Diversas pesquisas recentes mostraram o enfraquecimento dos sistemas imunitários de pessoas submetidas ao estresse causado por ambientes e atitudes hostis. Sofrer ou testemunhar grosserias pode fazer um mal danado não apenas ao físico, mas também à mente. Além de nos tornar mais cínicos, menos empáticos e menos dispostos a confiar em nossos semelhantes, comprovou-se que a grosseria gera grosseria, assim como a violência gera violência.

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Consciente ou inconscientemente, aprendemos com os outros e replicamos os comportamentos uns dos outros. O mesmo ocorre com a grosseria, infelizmente. Ela fica alojada em nossa mente e passa a se intrometer nas nossas sinapses. A simples lembrança de um episódio de má educação, por mais vago, pode nos deixar em estado confusional. [Outro estudo interessante mostrou que é mais difícil recuperar as forças depois de um dia de trabalho intenso no qual a falta de educação triunfou.]

FANATISMOS E IGNORÂNCIAS

Em um contexto de polarizações, fanatismos e negações, a maldade não é a primeira consequência visível (esta vem com o tempo). O que primeiro salta aos olhos é a falta de educação e os maus modos. Pessoas educadas e gentis passam a ter que conviver com incivilidades nas ruas, nos transportes públicos, na TV, na internet, enfim, na vida social como um todo. Por trás de um grosseria há sempre uma mensagem subliminar nefasta: “Se a má educação é a norma, usarei-a”.

Não dizer “obrigado”, “por favor” ou “me desculpe” é a grosseria número um da Modernidade. Falar ao celular (ou tocar música no aparelho pessoal) de modo que todos ao redor sejam obrigados a ouvir é a estupidez universal do momento. Maltratar empregados (os próprios e os dos outros) é a arrogância em forma aguda. E o que dizer de políticos espalhando indelicadezas em nome da “sinceridade”, como se a sinceridade fosse uma característica humana negativa?

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OPINIÃO E CINISMO

Não deveríamos confundir sinceridade com ter uma opinião (e poder emiti-la em público). Preste atenção, por exemplo, naqueles(as) chatos(as) sempre presentes em todas as festas/ocasiões. Se fazem de bem-humorados, mas, na verdade, não passam de cínicos. Humor e cinismo são coisas diferentes, aliás. O humor é uma maneira positiva de transmitir, por exemplo, uma crítica, enquanto o cinismo é uma forma de grosseria sofisticada (por ser sutil e enganadora).

Estamos atravessando um período da história no qual o tagarelar sem filtros (publicamente) virou sinônimo de “ser simples e verdadeiro”. No século 20, quando as redes sociais não existiam, fazia parte da boa educação falar apenas o suficiente para ser ouvido e compreendido. Hoje em dia, não. Observe os ocupantes de cargos públicos, gente que deveria dar bom exemplo: mentem, agridem e difamam como lhes convêm, desprezando a nossa inteligência.

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POLITICAMENTE CORRETO

O politicamente correto, em sua origem (EUA, anos 1990), foi um sistema de discurso “pensado” para desencorajar os membros das maiorias a ofender gratuitamente negros, gays, muçulmanos, cristãos, judeus, índios, pessoas com incapacidades físicas ou esteticamente fora do padrão midiático de beleza – indivíduos em posição de vulnerabilidade, enfim. Em sua forma mais simples, o politicamente correto nos obrigava a escolher bem as palavras (e com quem as usávamos).

Hoje, nos EUA, no Brasil e em outros países onde o populismo de extrema direita está conseguindo iludir uma parcela considerável da população, a horda dos super grosseiros vê o politicamente correto como censura. A propósito, já notou como a expressão politicamente correto tem sido associada a “coisa de benfeitores”? A turba ignóbil odeia benfeitores, ao que parece. E qual seria a alternativa? Malfeitores? “Nada-feitores”? (Risos.) Precisamos de mais educação, isto sim.

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Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e tradutor. Apaixonado por artes e psicologia. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros" e "Biografismo". Mora em Florença, Itália. //// Journalist, writer, and translator. Loves arts and psychology. Author of "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo", and other books. Lives in Florence, Italy: https://sergiovilasboas.com.br ///// [email protected]

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