E quem não mente?

Mentir é tão humano quanto errar, mas a mentira está entre as mais sofisticadas realizações do nosso cérebro e é um componente importante do nosso repertório comportamental. Quando o politicamente incorreto Dr. House disse “everybody lies” no primeiro episódio da série a óbvia frase virou mania. Estamparam-na em camisetas, canecas e bonés.

O fato é que sem a mentira a verdade não existiria. Sem a mentira talvez a vida em sociedade fosse insuportável ou absolutamente sem graça. Tente imaginar as pessoas dizendo somente aquilo que pensam ser a verdade sobre elas mesmas, sobre você, sobre o mundo. Viveríamos no limite entre a idiotia e a barbárie. [A propósito, pessoas com Mal de Parkinson tendem a perder a capacidade de mentir, e isso muitas vezes constrange quem não as conhece, porque dizer a verdade somente a verdade nada mais que a verdade pode ser chocante.]

No dia a dia, contamos pequenas mentiras o tempo todo: para agradar, para escapar, para obter, etc. Calcula-se que, em média, a gente invente pelo menos duas histórias falsas por dia, mas a frequência de fake news nas redes sociais indica que esse número pode ser exponencialmente maior em certos indivíduos.

Os detectores de mentiras foram proibidos nos tribunais dos EUA, mas ainda são usados em outras áreas do sistema penal

Como saber se uma pessoa está mentindo ou não? Os polígrafos ainda estão longe da exatidão desejada e a técnica da Imagem por Ressonância Magnética Funcional (fMRI, na sigla em inglês) é apenas incipiente. No entanto, apesar dos obstáculos e dificuldades, os cientistas que estão mapeando o funcionamento cerebral conseguiram um progresso considerável nos últimos anos.

Descobriram, por exemplo, que a mentira praticada por crianças de 4 a 6 anos é sinal de que elas já dominaram duas habilidades cognitivas importantes: 1) A capacidade de reconhecer e compreender as regras sociais e as possíveis consequências de desrespeitá-las; 2) A capacidade de imaginar o que o outro está pensando (quando percebe que foi vista pegando o último bombom, a criança sabe que a mãe não vai acreditar em nenhuma lorota).

Nos primeiros anos, as crianças têm dificuldade de formular mentiras verossímeis, mas estudos feitos nos Estados Unidos e na Holanda mostraram o quanto essa competência melhora com o tempo, até começar a involuir a partir dos 45 anos. Esses mesmos estudos indicaram que, em termos cognitivos, dizer a verdade é mais fácil do que mentir, porque a mentira exige recursos bem mais sofisticados. Alguns deles:

  • Antes de tudo, é preciso saber o que é a verdade;
  • A história falsa tem de ser consistente, sem contradições;
  • O ouvinte tem que acreditar realmente na mentira contada;
  • As reações do ouvinte devem ser avaliadas com precisão;
  • A história original precisa ser adaptada de acordo com as tais reações;
  • Mentir é transgredir uma norma social, e o mentiroso tem de estar consciente disso.
A frase “everybody lies”, dita pelo Dr. House no 1º episódio, virou mania

Culturalmente, a mentira é um ato condenável em todas as religiões e em todas as legislações. E por que mentimos mesmo assim? Bettina Stangneth, filósofa alemã autora de “Decifrando Mentiras“ (2017), acredita que nós, adultos, mentimos para nos esconder de quem ameaça invadir a nossa zona de conforto.

E como somos mais competentes em criar mentiras do que em detectá-las, criou-se o polígrafo, um século atrás, equipamento que foi sendo aperfeiçoado à medida que surgiam novas descobertas de laboratório, como a comprovação de que os mentirosos tendem a parecer mais tensos quando suas histórias não foram de fato vividas, eliminando detalhes inusitados que certamente teriam sido incluídos em formulações honestas. Os mentirosos também se corrigem menos e suas histórias parecem tão fluidas que soam frágeis.

Há pistas valiosas nesse percurso de entender o mecanismo da mentira, mas tudo isso ainda é muito pouco para identificar com segurança um autêntico mentiroso. Um estudo concluiu que diante de um mentiroso a nossa margem de acerto é de cerca de 54%, em média. Parece um índice elevado, mas é pouco maior do que se tivéssemos adivinhado. Quem cruza com potenciais mentirosos diariamente – policiais, juízes, psicólogos, corretores de seguros etc., profissionais com muita experiência no assunto – também tem a mesma dificuldade.

Políticos: a mais hábil categoria de mentirosos

Nos Estados Unidos os tribunais rejeitaram como prova judicial os detectores de mentiras que utilizam a técnica da Imagem por Ressonância Magnética Funcional (fMRI, na sigla em inglês). A eficácia do método simplesmente ainda não foi suficientemente documentada, afirmam. Uma máquina que lê pensamentos e captura no cérebro o exato momento da construção de uma mentira ainda está longe de existir. Enquanto isso, os membros da mais hábil categoria de mentirosos existente no Universo – os políticos – continuam fingindo ser o que nunca serão.

Sergio Vilas-Boas

Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e professor. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo" e "A Superfície Sobre Nós" (romance). Mora em Florença. Mais informações: http://www.sergiovilasboas.com.br/about/port/

Write a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Why ask?