Por que – para que – sonhamos?

Por que – para que – sonhamos? Essa pergunta intriga a humanidade há milênios e ainda é um dos grandes mistérios da vida. Das interpretações religiosas da Antiguidade à ciência moderna, passando pelas teorias de Freud e pelos experimentos de LaBerge sobre a fase REM do sono, os sonhos têm sido estudados tanto nas artes quanto no cotidiano. Uma coisa é certa: os sonhos nascem e se desenrolam dentro de nossas cabeças, não fora, e essa certeza aparentemente óbvia está revolucionando o conhecimento sobre o ato de sonhar.

Você sabe, durante muito tempo os sonhos foram vistos como canal de contato com divindades, como predições e como manifestações de instintos sexuais reprimidos. Como raramente um sonho tem sentido literal, é mais conveniente descartá-lo do que interpretá-lo. “Lágrimas são coisa séria. Podem ser colhidas em um copo. Mas o sonho, como o sorriso, é puro ar. Os sonhos, como os sorrisos, dissolvem-se no vazio”, escreveu Susan Sontag.

Por que - e para que - sonhamos?
Foto: Horacio Coppola // Sentir-se voando é um dos sonhos mais recorrentes relatados em pesquisas sobre o que ocorre na Fase REM do sono

Somente há poucas décadas os cientistas começaram a aceitar que os sonhos podem ter uma finalidade concreta: a de nos ajudar a superar dificuldades. Descobertas recentes indicam que quanto maiores as sensações de bem-estar vividas nos sonhos, maiores as chances de essas sensações serem experimentadas durante a vigília. “Os sonhos consolidam conhecimentos novos sobre os nossos potenciais”, escreve Alice Robb, jornalista especializada em ciência e autora de “Why We Dream?”.

RECORRÊNCIAS

Séries de pesquisas (realizadas no início deste século) mostraram que a maioria das emoções que experimentamos nos sonhos é negativa. De fato, se você der um refresh na sua memória muito provavelmente você se lembrará de alguns sonhos repetitivos e nada prazerosos. Tenho um recorrente em que me pego andando a pé no centro de cidades enormes (São Paulo, Nova York, Buenos Aires, etc.) descalço. Sim, descalço. Devidamente vestido, mas descalço.

Quantas pessoas entre as milhares que transitam pela Avenida Paulista, por exemplo, estão devidamente vestidas e descalças? Nenhuma (exceto alguns mendigos). O mais interessante é que dentro do meu sonho não consigo descobrir o porquê de estar naquela condição e muito menos achar um modo de atenuar o terrível desconforto causado pela nudez dos meus pés. Dos recorrentes, diria que esse é o meu mais perturbador (mas está entre os mais banais relatados em consultórios e laboratórios de pesquisa).

ESPELHOS

Mudam os personagens, as paisagens, os objetos, etc., mas os significados possíveis de um sonho são restritos. De modo geral, giram em torno de medos, culpas, impotências e vontades. Mas o predomínio de relatos oníricos atordoantes, como o que relatei acima, levou cientistas a se perguntarem: por que nossa mente fica tão sujeita a esse tipo de sensação ruim enquanto sonhamos? A palavra “mente” na pergunta não é por acaso. A propósito, permita-me um colchete.

[Durante séculos o coração foi considerado a sede da “alma”. Com os avanços das neurociências, porém, o cérebro tomou esse lugar. Segundo a mentalidade atual, é o cérebro a residência do Eu, tanto no plano físico quanto no imaterial. E está claro que o cérebro não é nem uma entidade desencarnada que representa o mundo nem uma espécie de computador que controla milagrosamente todo o corpo. Não. O cérebro é o centro do nosso pensar/agir no mundo, e isso é indiscutível.]

Por que - e para que - sonhamos?
“Dalí Atomicus” (1948), foto feita por Philippe Halsman com ajuda do próprio Salvador Dalí, evoca o fenômeno onírico

Os sonhos com conteúdo desagradável são um espelho das nossas ansiedades em relação ao desconhecido, afirmam os especialistas. De fato, se você prestar bem atenção, perceberá que ficamos mais ansiosos – e consequentemente mais estressados – antes de enfrentar uma situação nova. Mas esse nível de estresse cai bastante quando temos pelo menos uma noção de como será o jogo.

DESEMPENHOS

Por exemplo, se você já experimentou falar em público, sua próxima missão como orador será menos difícil. Por outro lado, se você nunca andou de avião e a simples ideia de fazê-lo não lhe soa nada bem, muito provavelmente você vai sofrer um bocado nas horas precedentes ao embarque. A ideia então é trabalhar o cérebro para que ele consiga se lembrar dos momentos em que a autoconfiança supera o medo.

As consequências das predições negativas expressas em nossos sonhos são muito visíveis. Em 2014, pesquisadores da Sorbonne estudaram “vestibulandos” de medicina. Quase 75% dos 719 aspirantes a médicos entrevistados disseram ter sonhado com o vestibular pelo menos uma vez ao longo do semestre imediatamente anterior às provas; e praticamente todos os relatos eram negativos. Pior: eram pesadelos.

Os resultados dos exames foram então comparados com as descrições dos sonhos feitas pelos pesquisados. Os alunos que sonharam mais vezes com a prova tiveram um desempenho melhor. O mais sugestivo, no entanto, é que todos os cinco primeiros colocados na disputa experimentaram em seus sonhos algum obstáculo relacionado à prova. Exemplos: sonhar que não conseguia chegar ao local da prova de jeito nenhum; sonhar que não havia feito nem a metade do prova quando o sinal tocou.

Por que - para que - sonhamos?
Pesquisas indicam que existem correlações entre o que ocorre na vigília e o que o ocorre enquanto sonhamos

CORRELAÇÕES

Uma das conclusões da pesquisa da Sorbonne é que os sonhos são fontes de ensinamentos para aumentarmos as chances de termos bom desempenho em circunstâncias complicadas. Porém, para que eles nos ensinem, precisamos nos lembrar. Ah, lembrar, eis a questão. Particularmente, mais esqueço do que lembro dos meus. Mas existem alguns exercícios disponíveis, como a técnica do sonho lúcido.

Apesar dos avanços, muitos aspectos da atividade onírica continuam indecifrados. Por exemplo, não podemos: 1) explicar por que determinada imagem aparece em uma determinada noite; 2) nem prever se um amigo que não vemos há anos ressurgirá na próxima vez que sonharmos. Porém, nada é gratuito ou independente em um sonho, pelo menos em tese.

Vários estudos mostraram que pessoas, lugares e objetos reais aparecem transformados em nossos sonhos. Mas pessoas são pessoas, lugares são lugares e objetos são objetos. Ou seja, existe correlação entre o que ocorre na vigília e o que o ocorre fase REM do sono

E você? Acredita que os sonhos têm um valor? Sonha com frequência? Se lembra facilmente de seus sonhos quando acorda?

Sergio Vilas-Boas

Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e professor. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo" e "A Superfície Sobre Nós" (romance). Mora em Florença. Mais informações: http://www.sergiovilasboas.com.br

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