Civilidade é um “bem comum”

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Percebeu que a palavra civilidade tem aparecido muito nos últimos cinco anos? Notou que, não por acaso, essa faixa de tempo cobre exatamente o período em que foram eleitos os presidentes dos Estados Unidos (Trump, 2016) e do Brasil (Bolsonaro, 2018)? Então, vamos clarear o significado. Civilidade é respeitar o que as outras pessoas pensam, sentem e dizem. Em uma sociedade que realmente quer ser democrática, a civilidade é um “bem comum“.

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As palavras-chaves para descrever a civilidade – cujo conceito se opõe, obviamente, a rudeza e grosseria, são: consideração, cortesia e polidez. Isso pressupõe empatia, sim, e tolerância também, claro. Sociedades tolerantes não são aquelas que, a priori, toleram tudo. Não. Sociedades tolerantes são as que prometem proteger não apenas a diversidade, mas também as discordâncias (nem sempre sensatas e fluentes) entre seus cidadãos. Discordância não é, necessariamente, nem problema nem ofensa. Tudo depende de como se faz.

CULTURAS NACIONAIS

Algumas culturas ocidentais incentivam e praticam seriamente o debate e a discordância há séculos – a cultura francesa, só para citar um exemplo. Franceses adoram debater (italianos também). Outras culturas de mesma matriz não veem com bons olhos quem diz o que pensa, mesmo que o diga com consideração, respeito e polidez. Você acha que a cultura brasileira valoriza a sinceridade civil polida? Tendo a acreditar que não.

A sociedade brasileira foi erguida sobre bases autoritárias e escravocratas, com foco na obediência vertical cega. Responder “sim senhor, amém, está bem assim”, mesmo pensando/sentindo o contrário, ainda é a regra em muitos âmbitos do país até hoje. A mensagem que nos passam, no fundo, é “aceite ou você ficará fora da partilha das sobras de pão”.

Quanta gente você conhece que é contrária a protestos de rua, por exemplo? Gente que “considera” preguiçosas e desocupadas as pessoas que participam de protestos? Uma novidade salutar (creio) emergiu recentemente: manifestações de rua organizadas por conservadores de todos os espectros: dos mais ingênuos aos mais lunáticos. Me lembro que os protestos de rua no Brasil entre 1984 e 2013 eram geralmente organizados por pessoas realmente progressistas. Devo ter perdido alguma coisa (risos).

POLÍTICA, RELIGIÃO, FUTEBOL

No Brasil, a cultura do debate é frágil. Há aquela velha máxima que diz que política, religião e futebol não se discutem. Não se discutem porque as posições individuais já estão predefinidas há “séculos” e nenhum debate civilizado poderá mudar os posicionamentos, acredita-se. No Brasil, discordar de alguém é quase um insulto. Um insulto às ideias e à inteligência alheia.

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Em teoria, as discussões de tipo complexo (política e economia, por exemplo) são exatamente o que Estados Unidos e Brasil se propunham a tolerar, cada um à sua maneira, cada um com as instituições (funcionais e/ou disfuncionais) que possuem. Claro que tudo é mais difícil quando as discordâncias em jogo estão entre as que consideramos fundamentais para nossa visão de mundo ou para o nosso senso de pertencimento.

[Por enquanto, uma poderosa força agregadora tem impedido que a coexistência entre pensamentos discordantes se transforme em homicídios, mas não foi sempre assim. Cruze os dedos. O fato é que a civilidade ainda é majoritariamente vista como virtude, na medida em que ela torna as discordâncias toleráveis, na medida em que ela nos permite compartilhar uma vida juntos, mesmo pensando diferente.]

NOÇÕES DISTORCIDAS

A palavra civilidade tem sido muito empregada globalmente porque muitos governos nacionais de diversos países, não apenas EUA e Brasil, têm acobertado (ou mesmo financiado) intolerâncias malignas de tipo nacionalista, racista, machista, homofóbico, misantrópico, etc. Se os debates estivessem fluindo bem e os pactos em prol da coletividade fossem evidentes, a palavra civilidade talvez ficasse obsoleta e eu não estaria escrevendo sobre ela agora. Mas não é o caso. Parece que a incivilidade está se alastrando.

Outro fator que muitos estudiosos da civilidade têm apontado é que, embora se fale muito a respeito disso em todos os quadrantes, a noção de civilidade atualmente explicitada não é aquela baseada em consideração, cortesia e polidez. Fala-se de civilidade agora como “estratégia de rompimento e/ou de vingança”. O alicerce da democracia é formular pactos (às vezes controversos) em prol da maioria. Os incivilizados, porém, querem pactos apenas para benefício próprio.

E você ouve por aí: “Como posso me manter civilizado(a) com alguém que tenta arrasar todas os conceitos e sentimentos que construí dentro de mim ao longo de décadas?”. Em debates agressivos, as cabeças podem se esquentar. Perde-se o equilíbrio. Ataca-se a pessoa que fala/escreve, não as suas ideias. Se houver um mediador (talvez “mamãe”), uma das partes lhe dirá assim: “Tá vendo? Foi ele/ela quem começou!”. (Risos.)

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ÓDIOS MÚTUOS

Há pelo menos um aspecto positivo nessa “estratégia de rompimento e/ou vingança”, acho. Ser chamado de incivilizado(a) – ou seja, ser igualado(a) a Trump e Bolsonaro, por extensão – ainda é muito mais inaceitável do que ser chamado simplesmente de mal educado ou de burro. Acusar um indivíduo de incivilidade é uma maneira pungente de afirmar que esse tal indivíduo não merece consideração. Parece bom sinal? Mas não é. Por quê? Porque ódio não se combate com ódio.

Os inaceitáveis, por sua vez (Trump e Bolsonaro liderando-os alienadamente), insistem que civilidade é conversa fiada, besteira de intelectual abastado, palhaçada de socialistas, etc. Na turba dos incivilizados (inaceitáveis) há muita gente que não é a favor de “uma democracia para todos” (embora o “para todos” seja dispensável), mas sim de “uma democracia que me convém, no momento”.

“A civilidade é a virtude que torna as principais discordâncias não somente possíveis mas também produtivas (de vez em quando, pelo menos)”, diz a cientista política Teresa Bejar. “Por outro lado, ela é difícil de praticar, principalmente no contexto político em que estamos.” No momento em que vivemos, de incertezas exponenciais – isso, desde o 11 de Setembro de 2001, ou seja, bem antes do coronavírus –, praticar a civilidade é uma tarefa estafante, até porque estamos um pouco, digamos, fora de forma.

O TEMPO VOA

Caramba, o tempo voa (e continuo me recusando a criar lives e podcasts em vez de textos), então vamos finalizar por tópicos. Assim:

  • Não acredite que “antigamente” existiu uma Era de Ouro do debate;
  • As mídias sociais obviamente potencializaram tanto a civilidade quanto a incivilidade (principalmente via fake news);
  • Civilidade não tem a ver só com política, mas com tudo: ex-namorado(a), vizinhos, reviews de restaurantes, reuniões da firma, etc.
  • Ter civilidade não significa “ser bonzinho”. Aliás, gente “muito boazinha” tende a ser insincera;
  • Para discordar civilizadamente é preciso coragem, autoconfiança e, como diz o jornalista Steven Petrow, uma linguagem calculada;
  • Ao longo dos séculos, muita gente morreu para que você hoje possa expressar suas opiniões (mesmo de forma insensata);
  • Não confunda civilidade com “ação politicamente correta” ou com “censura”. São três coisas bem diferentes;
  • Pessoas arrogantes, que dizem “você sabe com quem está falando?”, estão no top ten da incivilidade;
  • Ser verdadeiro (e polido) é difícil, mas temos que continuar tentando com todas as nossas forças.

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/// Se você curte escrever mas nem sabe como começar, leia isto. ///

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Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e tradutor. Apaixonado por artes e psicologia. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros" e "Biografismo". Mora em Florença, Itália. //// Journalist, writer, and translator. Loves arts and psychology. Author of "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo", and other books. Lives in Florence, Italy: https://sergiovilasboas.com.br ///// [email protected]

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