Viagem ao fundo do sono

Tenha paciência, por favor. Antes de eu entrar no tema central é necessário contextualizá-lo: sofro de insônia desde quando comecei a me tornar o responsável único pela minha vida. Não sei dizer como era na primeira e na segunda infância. Já na adolescência me recordo que era comum eu passar noites em claro por pensar demais à véspera de um evento decisivo – para o bem (o dia do vestibular) ou para o mal (comparecer a um velório), por exemplo. Mas a insônia propriamente dita, eu só a entenderia muitos anos depois. Insone é quem tem dificuldade persistente de pegar no sono e de mantê-lo.

Há vinte anos faço de tempos em tempos aos médicos e psicoterapeutas o mesmo relato: “Demoro muito para dormir e, quando durmo, acordo uma ou duas horas depois e só readormeço, quando consigo, após um esforço cansativo ou com o uso de algum comprimido nocauteante. E o pior: se não durmo pelo menos oito horas por noite, fico tão imprestável quanto irritável e desconcentrado no dia seguinte. O que podia ter sido feito em termos de psicoterapia (verbal e não verbal) foi feito”. Assim; desesperançoso.

Sempre tentei ações/rituais que facilitassem o adormecimento – da troca do colchão e travesseiro a sessões de acupuntura, passando por tentar relaxar olhando para a chama de uma vela e por aromaterapia. E nada. Lá estava eu de novo rodeado por medicamentos alopáticos, homeopáticos, naturais, antinaturais… Fossem o que fossem. O fato é que a insônia não é uma doença em si. Isso vale para mim e para todos os insones deste mundo louco. A insônia é sintoma ou efeito colateral de alguma outra coisa.

Como o exame de polissonografia não apontou nenhum defeito mecânico nos meus sistemas respiratório e muscular, a única hipótese para explicar a longevidade da minha insônia era a ansiedade. E fazia sentido. Agora advém a questão central: no meu caso, a ansiedade é tão necessária quanto destrutiva. Necessária porque foi ela que me fez criar, executar e concluir projetos complexos ao longo da vida; foi ela que me fez aprender a resolver questões difíceis com grande rapidez. Em estado “normal” (ou seja, com algum grau de ansiedade) sou altamente produtivo e criativo. Mas, ao mesmo tempo, a ansiedade é malévola porque me mantém hiperativado.

Daí que não posso simplesmente me transformar em um “tipo calminho”, daqueles que adormecem na vertical antes mesmo de o avião/ônibus/trem partir. Tampouco posso viver sustentavelmente em “estado de plena fluência” (criando coisas com brilho e curtindo a vida) porque assim durmo muito menos do que preciso e, por consequência, vou perdendo pouco a pouco as energias até me sentir exausto, super nervoso e desmemoriado.

O problema é solúvel. Como tudo na vida, trata-se de dosagem. Dosar o tempo de vigília e o tempo de sono, de modo que ambos se somem, em vez de se anularem. Mas não é fácil encontrar esse equilíbrio. A essa altura está claro que o que preciso é de uma combinação fisico-química de ingredientes naturais e industriais. Aliás, é essa combinação que tem me permitido dormir bem ultimamente. Alguma leitura sobre o assunto também ajuda, até porque me transformo mais pela aquisição de conhecimento que pela fé.

Os recentes avanços das neurociências estão revolucionando o conhecimento sobre os processos que ocorrem enquanto dormimos

Interessante saber que avanços científicos recentes estão revolucionando o conhecimento sobre os vários processos que ocorrem nos períodos em que dormimos. Cientificamente falando, a insônia seria um desequilíbrio entre o estilo de vida e o ciclo solar. Hoje dorme-se em média duas horas menos de quanto se dormia cem anos atrás, e a insônia é uma epidemia mundial.

A causa principal? A proliferação de luzes elétricas, inicialmente, e de televisores, computadores e smartphones, mais recentemente. Vivendo em um mundo sempre em movimento e iluminado, muitas pessoas ainda consideram o sono um inimigo da produtividade e do entretenimento. Aliás, na época em que Thomas Edison inventou a lâmpada elétrica, acreditava-se (com certo fervor avant-garde) que no futuro se dormiria cada vez menos. Supunha-se que quem ficasse mais tempo acordado aproveitaria mais a vida.

Um mundo iluminado mesmo durante o dia

A crença dos tempos de Edison se tornou real. De fato, estamos cada vez mais acordados e/ou com dificuldades de dormir, no geral, mas o entendimento é outro. A importância do sono para a saúde física e mental é hoje indiscutível. O ritmo sono-vigília é uma forma de adaptação em um planeta que gira continuamente entre o claro e o escuro. Porém, ignoramos a complexa viagem feita pelo nosso corpo toda noite; ignoramos que nosso cérebro sofre uma surpreendente metamorfose toda vez que pegamos no sono.

No início do sono, ficamos paralisados. Nada nos desperta. Os olhos, porém, continuam se movendo por trás das pálpebras, como se estivessem vendo algo, e os pequenos músculos da orelha vibram como se estivessem ouvindo. E quando nos aproximamos da fronteira entre a vigília e o adormecer podemos acreditar que tudo é possível, até mesmo voar. Em suma, o sono é um processo com várias fases, um processo que nos leva a um mergulho surreal rumo a uma espécie de realidade alternativa. Fascinante.

A primeira fase é a do adormecimento, quando o cérebro continua ativo. Mas isso ocorre: 1) Se o ritmo circadiano (o relógio biológico) estiver sincronizado com o fluxo de luz e claridade; 2) Se a glândula pineal estiver secretando melatonina, informando ao cérebro que já é “noite”; 3) Se nossos neurônios se adequarem… Ou seja, se esses três processos ocorrerem de modo harmônico, o cérebro desviará a sua a atenção do caos inerente ao estado de vigília e se voltará para si mesmo. Nesse meio tempo os receptores sensoriais se desativam e… Adormecemos.

Durante o sono, o cérebro seleciona memórias

Nessa primeira fase o sono é bastante superficial. Dura cerca de cinco minutos até a entrada na fase 2, que ocupa quase a metade do tempo em que se dorme. O mais interessante é que, quando dormimos, o cérebro não fica inativo. Ao contrário, continua ativo, mas de maneira diferente: nessa fase o cérebro está consolidando informações coletadas no período de vigília e decidindo quais memórias ficarão gravadas e quais serão eliminadas.

Segundo especialistas, essa escolha mental não é necessariamente sensata ou sábia. Tanto que a prevenção do estresse pós-traumático, por exemplo, passaria por um controle do horário em que a vítima dorme. Estudos feitos com soldados logo após retornarem de suas missões comprovaram que se a pessoa traumatizada se mantém acordada de seis a oito horas após o trauma é menos provável que a terrível experiência se transforme em uma recordação nociva a longo prazo.

Na fase REM há intensa atividade onírica

Nas fases 3 e 4 o sono é profundo. Já na fase REM (Rapid Eyes Movement), que ocupa cerca de um quinto do total do sono de um adulto, a atividade onírica se desenvolve intensamente, ainda que não recordemos nada do que foi sonhado. A propósito, o fato de não nos lembrarmos dos nossos sonhos indica que não tivemos um sono saudável, afirmam os neurocientistas. Parece que o que Freud tentou nos dizer por meio de interpretações verbais a ciência está conseguindo demonstrar por A+B.

Na fase REM a gestão do cérebro se transfere dos centros de lógica e racionalidade para as zonas cerebrais que regem nossos impulsos e instintos. Ou seja, os sonhos são mesmo atingidos pelas nossas emoções mais primitivas, como Freud havia escrito. Durante o sono REM o cérebro consegue funcionar independentemente dos estímulos sensoriais externos. Imaginemos a situação: é como se um artista, seguro e protegido em seu estúdio, pudesse desenvolver as suas mais incríveis ideias sem inibições nem censuras.

Então, com tantas coisas interessantes ocorrendo dentro de nós enquanto dormimos, fiquei pensando que esses tantos estudos (feitos graças aos avançados sistemas de diagnóstico por imagem) estão nos dizendo o seguinte: precisamos dar mais atenção ao sono e menos atenção aos impulsos eletromagnéticos desta era hipertecnológica. Além disso, confesso: daria tudo para assistir às sessões de sono REM que ocorrem na minha mente enquanto durmo. Meu verdadeiro eu deve estar ali, sem inibições nem ansiedades.

Sergio Vilas-Boas

Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e professor. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo" e "A Superfície Sobre Nós" (romance). Mora em Florença. Mais informações: http://www.sergiovilasboas.com.br

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    Fernanda Quinta

    Sergio, fantástico esse tema. Texto delicioso! Meu companheiro sofre do mesmo problema (insônia por ansiedade e otras cositas más…), o que reforça nossa atenção sobre os “fatores de risco” para uma noite de sono ruim. As descobertas sobre o funcionamento do cérebro também me fascinam e têm nos mostrado o quão precioso ele é para a nossa saúde (mental-física-social). Recomendo um vídeo do TED sobre o assunto: https://www.ted.com/talks/claudia_aguirre_what_would_happen_if_you_didn_t_sleep/transcript?language=pt

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