A ansiedade é ambivalente

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Sou ansioso, clinicamente falando. Dos 40 aos 55 anos de idade tive que tomar medicamentos de tempos em tempos para controlar os sintomas (a insônia é o sintoma que mais me prejudica). As causas são tantas… Três delas, só pra começar: 1) Fui educado para antecipar-me em relação aos possíveis obstáculos, com a mensagem subliminar de que “evitar é mais útil que arriscar”. 2) Meu ímpeto de criar/produzir/mudar é indomável. 3) Sou perfeccionista. Mas o que eu realmente quero te dizer é que a ansiedade é ambivalente. A minha, pelo menos, é. Um mal e um bem.

A ansiedade é ambivalente
“Anxiety Machine” (2019), performance no U10 Art Space, Belgrado // Foto: Nina Ivanovic

A palavra ansiedade sempre se refere a algo ruim, negativo, patológico. Ao tentar associá-la aqui também a expectativas saudáveis – no sentido de um fascínio, encantamento ou empolgação que atiça minha criatividade – corro riscos. Minha defesa é a seguinte: acredito que existe a ansiedade boa e a má, digamos assim. A boa influenciou meus sucessos. A má contribuiu para os meus fracassos.

Neste ponto é preciso cuidado. Quando falo em ansiedade boa estou me referindo a ser ansioso normalmente, porque assim sou e porque não há um botão liga/desliga. Em condições normais, minha ansiedade não causa panes no meu funcionamento (ao contrário, me impulsiona). E quando falo em ansiedade má, estou me referindo a “crise de ansiedade”. Em uma crise, a sensação é de exaurimento (tipo “nível de baterias em 1%”).

MEU BEM

A ansiedade boa (repleta de ideias realizáveis e expectativas positivas) me fez gerar, executar e concluir projetos complexos em intervalos de tempo curtos; me ajudou a obter (de maneira autodidática e rápida) conhecimentos que a maioria das pessoas considera difíceis ou inatingíveis. Sou uma pessoa intensa, que, quando se propõe a fazer algo, crava as digitais no que faz.

Escrevi (como autor – com nome na capa – e como ghostwriter) 14 livros e organizei 5 coletâneas num intervalo de 20 anos. Sem dedicação exclusiva. Fiz isso enquanto trabalhava como jornalista e/ou como professor. Quando movido por uma agitação construtiva, “I really solve problems” (risos). A propósito, estou neste momento tentando solucionar um problema: escrever sobre ansiedade por um ponto de vista pessoal. Nenhum outro ensaio aqui no “Rep Ats” me deu tanto trabalho quanto este.

MEU MAL

E quando não sou movido por inquietações positivas/criadoras, como é? Ah, damn it. É horrível. Percebo a ansiedade maligna se aproximar quando me vejo forçado a agir muito, muito rápido, em qualquer circunstância. Quando tudo – até as insignificâncias – me irritam profundamente. Fico muito impaciente com lentidões, enrolações, barulhos repetitivos e lugares reluzentes.

Meu raciocínio, normalmente rigoroso e ágil, atinge uma velocidade que nem eu mesmo consigo acompanhar. Os “defeitos” (os meus e os do mundo) adquirem uma dimensão gigantesca. Me tranco dentro de mim mesmo e escondo a chave. Telefonemas, mensagens? Não respondo. Convites? Recuso. O pior: perco a capacidade de ser amável e gentil, duas atitudes que aprecio e que defendo.

GATILHOS

Estes e outros sinais de crise (apontados acima) pertencem a um conjunto amplo. Não surgem sempre nessa ordem, nem de uma só vez. Vão aparecendo aos poucos. Você já deve ter percebido o quanto é importante conhecer os mecanismos da sua ansiedade para ser capaz de intervir. Conhecer os gatilhos também é decisivo. Gatilho é diferente de causa. As causas da ansiedade são muito variadas (falo sobre isso mais adiante).

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Gatilho é o que te deixa vulnerável a pensamentos destrutivos. Pensamentos destrutivos são a principal porta de entrada para a ansiedade. E é diferente de pessoa para pessoa. Só para você ter uma ideia, o meu gatilho mais recente foi o Covid-19. Não só por ter virado a minha vida de cabeça para baixo, mas por ter colocado em xeque as nossas (frágeis) convicções como membros individuais de uma espécie ameaçada.

COMO A CHUVA

O psicólogo Thomas A. Richards, criador do Social Anxiety Institute, fez um paralelo interessante entre a ansiedade e a chuva. Até a chuva é ambivalente. Ela pode ser vista como dádiva ou como maldição. A chuva para mim é calmante/revigorante. Chuva é água e água é vida. Nada de bom pode acontecer sem chuva. Embora a chuva possa ser desagradável durante um tempo, ela nunca será minha inimiga.

“O paradoxo da chuva é que, para que ela seja uma bênção, você tem de reconhecê-la e aceitá-la como tal”, escreve Richards. “Pode ser desconfortável, mas essa conclusão te prepara também para as coisas boas que virão. A flor aceita a tempestade porque sabe que obterá a água de que tanto precisa. Aceitar a chuva nos dá o prazer de escolher seguir em frente.”

A ansiedade é ambivalente

BILHÕES

A ansiedade atinge bilhões de pessoas no mundo. É tão diagnosticada e tão conhecida que o uso da palavra se banalizou. Na verdade, a ansiedade é uma resposta natural do corpo ao estresse. Um sentimento de desconforto inespecífico. Uma apreensão sobre o que está por vir: o primeiro dia de aula, a entrevista de emprego, a apresentação em público, guerras, catástrofes ambientais, contaminar-se por um vírus, etc. Você antecipa problemas que até podem vir a ocorrer mesmo (minhas elucubrações não são totalmente desprovidas de coerência e sentido), mas que não correspondem aos fatos de hoje. Em outras palavras: você amplifica problemas imaginários e torna mais difíceis a solução dos problemas reais.

Sim, a ansiedade pressupõe insegurança e nervosismo. As causas gerais? Traumas de infância, cansaço acumulado, excesso de preocupações (preocupar-se com “o que os outros podem estar pensando sobre você”, principalmente), uso abusivo de álcool e drogas, hereditariedade, entre outras. Genes, ambientes e comportamentos parecem formar um bloco tão coeso quanto imutável, mas não é bem assim. A hereditariedade é a única variável da qual você não tem como escapar.

GENES E AMBIENTES

Sou filho de pais hiper ansiosos e mega controladores, e na família da minha mãe há muitos casos de doenças mentais graves. Cresci em um ambiente ansiogênico, onde tudo parecia (só parecia) funcionar sob o mais rígido controle. Racionalmente falando, sei que temos pouco controle sobre o que acontece em nossas vidas, mas a ansiedade é irracional, opõe-se à lucidez, e alimenta-se dela própria. Ansiedade gera mais e mais ansiedade.

Não por acaso, quando entro em processo ansioso maligno, a minha maior vontade é a de colocar (e de ver) as coisas todas nos seus devidos lugares. E o que acontece? Vejo tanta coisa fora de lugar que fico ansioso por não ser capaz de arrumar todas (risos). Chamo isso de “ilusão de controle”, uma variação de perfeccionismo, que só agrava a situação, obviamente.

MEU SER

Comportamentos expressam quem somos. Temperamentos também. Sabe aquele cara super relaxado que adormeceu com a boca aberta antes mesmo de o avião taxiar? Não era eu. O modo “hibernar” não foi previsto em meu sistema operacional. Minha mente não para. Estabeleço correlações e crio pontes ligando continentes até quando estou em repouso.

Opero com muitas variáveis simultâneas, antevejo/vislumbro cenários, morro de preguiça de tarefas banais, odeio repetições e fujo de conversa fiada. Além dessa hiperatividade cerebral, sou introvertido e hiper-sensível (importante você acessar os dois links para entender do que se trata). A introversão e a hiper-sensibilidade são “dádivas”, hoje entendo. Por outro lado, podem potencializar angústias anormais.

De novo a constatação de ambivalência: todas essas características do meu ser me conduzem a interpretações, insights e soluções certeiras para questões concretas de hoje, de amanhã e de sabe-se lá quando, mas, em circunstâncias desfavoráveis (estresse, desmotivação, perdas, etc.), geram também conclusões pré-catastróficas, sem respaldo na realidade imediata.

A ansiedade é ambivalente

O QUE FAÇO?

Antes de responder a essa pergunta, peço que você – ansioso(a) – imagine como seria a sua vida se você sequer tivesse consciência de que é ansioso(a), clinicamente falando.

Pronto. Agora posso te dizer o que tenho tentado fazer para lidar com minha ansiedade, além das ações óbvias, que você já conhece, como buscar ajuda profissional e tomar medicamentos (conforme o caso):

  • Evito me sobrecarregar com problemas que não são meus.
  • Não me iludo mais com ideais de perfeição.
  • Quando invadido por maus pensamentos, direciono minha atenção para o modo como estou respirando.
  • Por falar em respiração, pratico Mindfulness.
  • Seleciono um tempo para atividades que me dão prazer, como andar de bicicleta, tocar violão, jogar xadrez e ouvir música.
  • Faço o possível para ir dormir (e acordar) todos os dias mais ou menos no mesmo horário.
  • Facilita a minha vida ter clareza de por que estou desenvolvendo um trabalho, se pelo desafio ou se só pelo dinheiro, por exemplo.
  • Sinto e exprimo gratidão, sinceramente.
  • Aceito com naturalidade o fato de que todas as medidas anteriores (e tantas outras mais) podem não funcionar, e que, assim sendo, só me resta conviver com quem realmente sou. E ponto.

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Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e tradutor. Apaixonado por artes e psicologia. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros" e "Biografismo". Mora em Florença, Itália. //// Journalist, writer, and translator. Loves arts and psychology. Author of "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo", and other books. Lives in Florence, Italy: https://sergiovilasboas.com.br ///// [email protected]

  1. Branca Maria de Paula

    Olá, Sergio!

    Também sou escritora ansiosa e me identifiquei muito com você neste seu mergulho na ambivalência. Foi divertido, creia. Siga em frente, é o que posso dizer, pois vale a pena.
    Recebo sempre suas crônicas, mas nem sempre tenho disponibilidade para ler. Apesar do ano paralisado, continuo sendo “A Louca da Casa”. Não consegui ainda relaxar.

    Abraços,

    Branca Maria de Paula

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