A parcimônia é um bem

Lembra aquele post sobre minimalismo (a arte de viver bem com o mínimo necessário)? Pois é. Fiquei pensando: e onde vão parar as coisas eliminadas/descartadas? A gente reduz, doa, vende mas, em última instância, tudo aquilo que fora extraído da natureza e que ficara retido em nossas casas acaba indo para aterros sanitários, que, infelizmente, não vão desaparecer tão cedo. Ao contrário, eles só aumentam.

Preocupar-se com o meio ambiente e promover a reciclagem e a reutilização de coisas é tão imperativo quanto unânime. A prática, porém, é outra. Uma pesquisa (2018) mostrou que a maioria dos brasileiros sabe pouco ou nada sobre coleta seletiva e menos ainda sobre o que acontece com o lixo doméstico depois que é entregue às empresas que prestam esse serviço; e apenas uma em cada quatro pessoas separa o lixo corretamente.

Isso precisa ser repensado com urgência. Não existe solução rápida nem medida única. O que temos é a ciência para indicar caminhos e a tomada de consciência para evitar tragédias. A experiência de tentar e o prazer contido nessa tentativa são os maiores incentivos. Uma ideia interessante e que também tem a ver com minimalismo é a parcimônia/frugalidade, que nossos avós já conheciam bem e que pode ser resgatado.

A gente corta, reduz, doa, vende milhares de objetos inúteis, mas, em última instância, aonde eles vão parar?

Significa reduzir e poupar, mas também reutilizar e reciclar. A parcimônia nasce da certeza de que, em vez de ficarem amontoados, os objetos devem circular e/ou adquirir novas formas e funções. Para não ficar viajando sobre as nuvens, darei um exemplo doméstico. Patrícia (minha mulher) percebeu que em dias específicos da semana as calçadas em frente às lojas chiques de Firenze ficavam repletas de caixas vazias à espera dos caminhões de coleta.

As caixas, além bonitas, são feitas de um material duro e resistente. Com essas caixas, ela criou armarios coloridos super funcionais para roupas, sapatos, documentos e material de escritório. Isso nos ajudou a otimizar o espaço também. Na Itália, as pessoas de classe média têm de lidar com espaços pequenos e não contam com serviçais para tudo. No centro de Firenze, por exemplo, a gente mesmo leva o lixo – já separadinho – para as caçambas subterrâneas.

O fato é que a reciclagem/reutilização se revelou estratégica. Alguns setores já atingiram um bom nível de parcimônia. Na indústria automotiva, 95% de cada carro retirado das ruas podem ser reciclados. Desse total, 75% dos materiais já são reutilizados de fato. Do aço e do alumínio ao plástico dos acabamentos interiores, do vidros das janelas aos pneus. Ou seja, atualmente um carro pode ser feito em grande parte a partir de outro carro e isso é animador.

Os descartes domésticos acabam indo para aterros sanitários

Pensando em termos globais, o grande gargalo em relação a descarte, reutilização e reciclagem está na construção civil. Em vez de desmontadas, as construções são demolidas ou implodidas. Calcula-se que um terço de todo o lixo de aterros sanitários seja composto por entulhos de demolições. Mas esse entulho todo também já pode virar tijolos de novo, por meio de um moedor e de um derretedor, o que reduziria bastante a extração de matéria prima da natureza.

O arquiteto japonês Shigeru Ban, por exemplo, repensa atitudes (risos) há muito tempo. Ele redefiniu o espaço, a estrutura, a estética e a noção que temos de permanência. Em 1986, durante a famosa Mostra Alvar Aalto, em Tóquio, Ban realizou um experimento marcante: um edifício construído com longos tubos de papelão rígidos descartados pela indústria têxtil. Os tubos se mostraram muito mais fortes do que ele imaginava; e fáceis de ser impermeabilizados.

Depois disso, Ban criou abrigos de emergência para refugiados em Rwanda (1994). No ano seguinte, após um terrível terremoto no Japão, ele reconstruiu uma igreja com o tais tubos de papelão que se tornou um “local fixture” por dez anos. Seus projetos, que comtemplam dignidade humana e baixo custo ajudaram centenas de vítiimas de desastres ambientais em Taiwan, China, Haiti, Turquia, Sri Lanka e em seu país (após o tsunami de 2011).

O arquiteto japonês Shigeru Ban usa materiais alternativos

Tudo o que envolve inovação e mudança de atitude – para melhorar a vida em sociedade – enfrenta mil obstáculos. Não foi diferente com Ban. Essas resistências têm origem na acomodação gerada por modelos mentais estáticos, focados em facilidades que produzem dificuldades futuras e em imediatismos que em seguida criam problemas longevos. Mas devemos ter em mente que, para cada obstáculo, há sempre uma solução.

Não por acaso, a natureza é muito eficaz em termos de parcimônia. A natureza simplesmente não desperdiça nada. Tudo é útil em algum lugar, de algum modo. Mas o que fazer com as garrafas plásticas? As garrafas de água mineral são a prova do quanto ainda desperdiçamos. E as garrafas estão indo para os oceanos! Diferentemente de metais e vidros, o plástico permite reciclagem duas vezes, no máximo. Depois disso, perde resistência e se torna inútil.

Andrew Dent, especialista no assunto, tem um convite importante para nos fazer: “Se fizerem qualquer coisa, se fizerem parte de uma empresa de design, se estiverem reformando as suas casas, ou seja, em qualquer situação em que estejam criando algum produto, pensem em como esse produto poderia ter uma segunda, terceira ou quarta vida útil. Projetem-no para que ele possa ser desmontado. Isso para mim é a parcimônia máxima”.

 

Sergio Vilas-Boas

Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e professor. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo" e "A Superfície Sobre Nós" (romance). Mora em Florença. Mais informações: http://www.sergiovilasboas.com.br/about/port/

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