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Estar presente aqui agora

Estar presente aqui e agora, eis o problema. No momento em que você começa a ler este texto, a sua mente está produzindo pensamentos sobre tantos assuntos (reais e imaginários) que é difícil concentrar-se. Uma das piores causas – talvez seja mais acurado dizer “causas e consequências” – da cultura de massa Ocidental é a dificuldade de viver o (e no) tempo presente. Estamos sempre sob a influência de divagações que transitam entre passado e futuro, enquanto o presente nos passa batido. Fiz as contas: devo ter vivido metade dos meus 53 anos desatento, aéreo, perdido em pensamentos sobre o irrecuperável e o inconfirmável (risos).

Estar presente aqui agora
A “máquina de pensar” deixa para trás um rio de momentos não vividos, e por isso precisamos esvaziar a mente pelo menos uma vez por dia

AGORA É AGORA

Não por acaso, quando me caiu nas mãos o livro “Wherever You Go, There You Are”, de Jon Kabat-Zinn, saltei as apresentações e fui direto para a primeira página – o que já denota certa ansiedade, claro – e li o seguinte: “Quer saber? Quando se trata de chegar a algum lugar, seja qual for, você já chegou. Qualquer coisa que você tenha desejado completar, já está completa. Seja o que for que aconteça, já aconteceu. Qualquer coisa que você esteja pensando neste instante, essa é a coisa que você tem dentro da sua cabeça e ponto. ‘E agora?’. Gostem ou não, o agora é um momento que devemos enfrentar”.

Por que não funcionamos bem em relação ao aqui-e-agora, o momento em que o coração bate, os pulmões respiram e os sentidos sentem? Na visão de Jon Kabat-Zinn, especialista em mindfulness (atenção plena) devemos nos impor uma pausa suficientemente longa para enquadrar o presente, senti-lo e visualizá-lo em sua plenitude, mas também para adquirirmos a consciência de conhecer e entender melhor o nosso próprio presente. Isso vale tanto para o rumo que você está tentando dar para a sua vida quanto para os efeitos que as suas ações e os seus pensamentos têm sobre o que você vê e não vê, faz e não faz.

LIMPAR A MENTE

Fora dos ambientes esotéricos, as pesquisas sobre “a vida no tempo presente” atingiram o ápice nos anos 1990, com a patologização das instabilidades emocionais e o lançamento de “O Poder do Agora” (2002), de Eckart Tolle, que se tornou best-seller mundial. Jon Kabat-Zinn, por sua vez, foi um dos cientistas que introduziram a meditação na medicina convencional, com o intuito de ensinar seus intrépidos compatriotas a descansar na quietude, resgatar o senso de equilíbrio, escapar da contínua corrente de “fantasias” em geral inúteis e, por fim, esvaziar/limpar a mente.

Embora a vida se desdobre no presente, a força de inércia da nossa inconsciência em dado momento insiste em nos condicionar para o amanhã. Dias, meses, anos podem transcorrer portanto inutilizados, subvalorizados e submersos em ruminações sobre o que aconteceu ou poderá acontecer. É claro que vivemos em um mundo de fragmentação e distração, e o rio de pensamentos é cada vez mais caudaloso, o que nos impede de desfrutar ao máximo o instante presente.

SEM JULGAMENTO

Quando estamos trabalhando, fantasiamos sobre as férias; nas férias, nos preocupamos com o trabalho que se acumula para quando voltarmos. Não apreciamos o presente imediato porque nossas “cabeças de chimpanzés” saltam de um pensamento para outro como macacos pulando de árvore em árvore. Os pensamentos nos controlam, não o contrário. Mas, como você não é o que você pensa, pergunte-se, ao longo do dia: “Onde o meu corpo está agora? O que está acontecendo agora no meu corpo e nos arredores?”

A gente precisa mesmo aprender a observar os pensamentos sem julgá-los, até porque o cultivo de uma consciência acrítica em relação ao aqui-agora traz benefícios (cientificamente comprovados): redução do estresse e da dor crônica e maior facilidade em lidar com situações limites. “Pessoas conscientes são mais felizes, mais vistosas, mais empáticas e mais seguras. Têm autoestima elevada e aceitam bem as próprias fraquezas. Pessoas conscientes do tempo presente ouvem um feedback negativo e não se sentem ansiosas e ameaçadas”, escrevem os autores de “Mindfulness For Life”, Stephen McKenzie e Craig Hassed, estudiosos das aplicações clínicas da atenção plena.

MAS COMO?

Todo mundo concorda que deve viver mais no presente, mas como? Viver no presente implica um paradoxo: você não pode buscá-lo em função dos benefícios que possa trazer porque a expectativa de recompensa faz parte da mentalidade direcionada para o futuro e isso subverteria todo o processo. Então, a maneira de obter o que queremos é deixando de lado o objeto de desejo? Qualquer resposta a essa questão pode soar controversa. Mas digamos que sim, que a primeira atitude para  aperfeiçoar a nossa performance é parando de pensar nela (risos).

Estar presente aqui agora
Embora a vida se desdobre no presente, a força de inércia da nossa inconsciência em dado momento insiste em nos condicionar para o amanhã

No geral, estamos tão presos às armadilhas da futurofobia que simplesmente nos esquecemos do instante único. Você pede um café e pensa “este não é tão bom quanto o da semana passada”. Você mastiga o seu almoço pensando “não posso demorar mais do que dez minutos aqui”. Incrível. Então, se você quer um futuro significativo, viva no presente e, para aproveitá-lo ao máximo, perca o controle e deixe fluir. Talvez o modo mais completo de viver no momento presente seja o estado de absorção total que os psicólogos chamam de fluxo (flow). [A propósito, “Flow”, do psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, é um livro interessante.]

ABSORÇÃO

O fluxo ocorre quando você está tão absorto em uma tarefa que perde a noção de todo o resto ao redor. O fluxo também envolve um paradoxo: como você pode estar vivendo no momento se não está ciente do momento? Uma pessoa em fluxo está tão imersa e concentrada no que faz que as distrações/divagações não conseguem penetrar no processo. Em fluxo, a gente nem percebe a passagem do tempo. Mas o fluxo é um estado elusivo, como o sono. Assim como a gente não consegue dormir pensando em dormir, não conseguimos fluir pensando em fluir. O que você pode fazer é preparar o cenário e criar as condições ideais, e só.

Sabe, se eu encontrasse uma cabine telefônica (sic) no meio do deserto com a placa “Entre e pergunte a Deus”, eu perguntaria: “Como posso viver mais no presente?”. Na verdade, já sei a resposta (risos): “Respire! Se você se sente ansioso em relação ao futuro ou ao passado, respire. Inspire e expire, conscientemente, prestando atenção ao que está acontecendo (no seu corpo e ao seu redor) agora”. Mais: se algo está lhe incomodando, mova-se em direção a esse algo, em vez de ficar tentando afastá-lo; e, claro, para minimizar o risco de blackouts, seja capaz de perceber coisas novas em todas as situações que você estiver vivendo.

Sergio Vilas-Boas

Escritor e jornalista especializado em psicologia. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros" e "Biografismo". Mora em Florença. Mais info: https://sergiovilasboas.com.br - Email: [email protected]

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