Amor é prática diária

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Fazia tempo queria escrever sobre o amor por uma perspectiva mais social e menos individual, embora os dois âmbitos estejam necessariamente interligados. Num dia nevado aqui no Montes Apeninos, comprei o e-book “All About Love: New Visions”, de bell hooks. Esse ótimo livro aborda o amor como um valor humano com qualidades tão específicas quanto observáveis. Amor é prática diária. Está (deveria estar) em todas as nossas relações com pessoas e com o mundo. Para nos guiar nas principais esferas de nossa existência – família, amizades, política, economia, trabalho, namoro, casamento e religiosidade – bell propõe uma “ética amorosa” baseada na verdade e no senso de justiça. Uma ética que acolha no cotidiano as qualidades do amor: cuidado, carinho, respeito, confiança, compromisso e comunicação aberta e honesta.

amor é prática diária
Mais que um sentimento, o amor é uma ética de vida, práxis que se constrói dia após dia
– imagem: “Lírios de Lótus” (1888), de Charles Courtney Curran

Esse tema sempre esteve envolto em romantismos, cinismos e otimismos. Os românticos acreditam que o amor é decisivo, mas têm apenas uma vaga ideia de como buscá-lo e como expressá-lo; os cínicos o consideram irrelevante, coisa de gente fraca e irracional; já os otimistas, confiantes na generosidade humana, defendem-no como antídoto contra o fim do mundo. Romances, filmes, séries, teatros e canções, por sua vez, parecem dar mais ênfase ao desamor que ao amor. Tantas narrativas e teses me transmitiam a estranha impressão de que amar é uma idiotice, uma ilusão ou uma fraude. “All About Love” me fez acreditar (de novo) que o consumismo hedonista da alienante era hiper-tecnológica não invalidou (ainda) o mantra “All you need is love” (1967, Beatles).

INDEFINIÇÕES E QUALIDADES

Nos dicionários, as definições tendem a enfatizar o amor dos casais. A mais comum define-o assim: “Afeição profundamente terna e apaixonada por outra pessoa, especialmente quando há atração sexual”. Definições desse tipo, mesmo quando desvinculadas do “sexual”, focam o amor romântico, quase sempre. Concordo com bell hooks que “afeição profunda” não descreve de forma adequada o significado do amor. A autora opta pela definição de M. Scott Peck (1936-2005) baseada na obra de Erich Fromm (1900-1980): “O amor é a vontade de se empenhar ao máximo para promover o próprio crescimento espiritual ou o de outra pessoa”. [“Espiritual” no sentido de “integral”: corpo, mente e alma. “Ninguém precisa ser religioso para entender isso”, diz bell.]

Todo mundo admite que o amor é maravilhoso e necessário, mas ninguém consegue concordar a respeito de sua definição. (…) O amor é o grande inatingível.

Diane Ackerman, “Uma História Natural do Amor”

Para amar verdadeiramente, deveríamos aprender a misturar várias qualidades inerentes ao amor: cuidado, carinho, respeito, confiança, compromisso e comunicação aberta e honesta: “Quando entendemos o amor como a vontade de nutrir o nosso crescimento integral e o de outra pessoa, fica claro que não podemos dizer que amamos se somos nocivos ou abusivos. Amor e abuso não podem coexistir. Abuso e negligência são, por definição, opostos a cuidado”, escreve bell: “Aplicando a definição de amor de Scott Peck à experiência da minha infância no lar em que cresci, honestamente eu não poderia descrevê-la como amorosa”. Muita, mas muita gente tem hoje essa mesma percepção de bell hooks em relação aos seus passados familiares.

QUEM É A AUTORA?

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bell hooks (1952-2021)

Seu nome é Gloria Jean Watkins. Nasceu em 1952 em Hopkinsville, Kentucky. Passou a infância e a adolescência em uma comunidade segregada. O pseudônimo bell hooks vem da bisavó: Bell Blair Hooks. Prefere a grafia de seu pseudônimo em minúsculas para não chamar a atenção para si mesma, dizia. Suas pesquisas acadêmicas examinaram as conexões entre raça, gênero e classe. Observou as percepções de mulheres (e escritoras) negras para descrever como o capitalismo americano produz e perpetua sistemas de opressão e dominação de classe. Feminista e ativista, publicou 40 livros (teses, ensaios, poesias e obras para crianças). Lecionou em várias universidades – Yale e Stanford entre elas – e se fixou no Berea College, onde fundou o bell hooks center.

All About Love”, lançado em 2000 nos EUA e traduzido para o português pela editora Elefante em 2021 (ano da morte de hooks), contém Ideias/premissas atraentes para quem quer entender o amor em sentido amplo: 1ª) Temos vaga ideia do que seja amor, mas percebemos sua ausência. 2ª) Sendo o amor pouco ensinado em família e nas escolas, acredita-se que o conheceremos por instinto. 3ª) A maioria das teorias e narrativas aclamadas sobre amor foi produzida por homens, que sempre estiveram mais ocupados com poder e dominação do que com emoções e sensações. 4ª) A cultura patriarcal branca considera o amor perigoso (claro, amar implica verdade e senso de justiça). 5ª) Mais que um sentimento, o amor é uma ética de vida, práxis que se constrói dia após dia.

DESDE CEDO

Seja ela feliz ou problemática, funcional ou disfuncional, a casa dos pais ou cuidadores são nossa primeira escola de amor, mas não é incomum um adulto espancar uma criança dizendo-lhe: “Dói mais em mim que em você”. As crianças aprendem a pensar o amor como um sentimento “bom”, mas num contexto de terrorismo, “recompensa” e punição. “Nada cria mais confusão em relação ao amor no coração e na mente de crianças do que punições duras e/ou cruéis aplicadas pelos mesmos adultos que elas foram ensinadas a amar e respeitar.” Nesse sentido, não deveríamos nos vangloriar das surras agressivas que eventualmente nossos pais nos impuseram: “Ninguém verdadeiramente amoroso se comporta de maneira cruel”.

A criança ferida dentro de muitos homens é um menino que, da primeira vez que falou suas verdades, foi silenciado pelo sadismo paterno, por um mundo patriarcal que não queria que ele reivindicasse seus reais sentimentos. A criança ferida dentro de muitas mulheres é uma menina que foi ensinada desde os primórdios da infância que deveria se tornar outra coisa que não ela mesma e negar seus verdadeiros sentimentos, para atrair e agradar os outros.

bell hooks, “Tudo Sobre o Amor”

Sabe-se que “famílias disfuncionais” e “famílias nas quais o abuso é o padrão” estão em todos os continentes, todas as classes sociais, e existem mais famílias assim no mundo do que imaginamos, infelizmente. Em tantos lares há o cuidado (uma das qualidades do amor) – as crianças recebem alimentação, roupas e material escolar, por exemplo –, mas todas as demais qualidades do amor inexistem. Nos piores casos, as crianças sofrem abusos físicos e/ou psicológicos. “Cuidado é uma das dimensões do amor, mas somente cuidar não significa que estamos amando. (…) A maioria das crianças abusadas física e/ou psicologicamente foi ensinada pelos adultos que amor pode coexistir com abuso. E, em casos extremos, que abuso é uma expressão de amor”.

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“Ao contrário do que se pensa, se você ama os outros, sabe amar a si próprio”, afirma a autora
– foto: Andrew Yuan / Pixabay
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A VERDADE E NADA MAIS

A relação entre o amor e a verdade é direta. Muitas pessoas aprendem a mentir na infância, para evitar punições ou para não desapontar ou magoar um adulto. Quem conta mentiras educadas ou diz o que os adultos querem ouvir sempre foi mais popular e querido (e mais bem recompensado) do que quem fala a verdade. Mulheres também “são estimuladas pela socialização machista” a fingir e manipular. Mentir como forma de agradar. E “homens aprendem a mentir como forma de obter poder”. Em relação ao poder, as mulheres, escreve bell, “não apenas fazem o mesmo como também mentem para fingir que têm poder”. Depois de um tempo, todos (homens, mulheres, crianças, etc.) passam a ter dificuldade em diferenciar mentira e verdade.

O amor que não se realiza no dia a dia por causa do hábito de mentir é gritante entre homens. Ao adotar os valores patriarcais (por questão de sobrevivência, até), os homens aprendem que a melhor maneira de esconder a raiva constante que sentem/sentiram por não terem recebido amor é renunciando ao desejo de amar. Acredita-se ainda que homens podem dominar mulheres e crianças e mesmo assim serem vistos como “amorosos”. A mentira se sustenta na crença de que manter segredos, reter e esconder informações é uma forma de controle. “Em nossa cultura, a privacidade é confundida com segredo. (…) Mas é impossível ‘nutrir o próprio crescimento espiritual ou de outra pessoa’ quando o centro da identidade está envolto em segredos e mentiras.”

AMOR-PRÓPRIO É AMOR

Quem não ouviu/leu aquela máxima: “Se você não se ama, não poderá amar ninguém, nem será amado”. Essa frase soa bem e é bastante aceita. Ao mesmo tempo, nos deixa confusos, porque, afinal, o amor-próprio não tem como florescer na solidão. Mais: não é tarefa fácil amar a si mesmo(a). Se fosse fácil, a baixa autoestima e o auto-ódio (descarregar a raiva interior contra si) não existiriam: “Quando vemos o amor como uma combinação de confiança, compromisso, cuidado, respeito e responsabilidade, podemos trabalhar para desenvolver essas qualidades ou, se elas já forem parte de quem somos, podemos aprender a estendê-las a nós mesmos”. E “precisamos saber dar a nós mesmos o amor que tanto desejamos receber de outra pessoa”.

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Crianças não podem confundir amor com abuso e negligência
– foto: Daniela Dimitrova / Pixabay

Em nossa cultura, o amor-próprio está muito associado a trabalho, mas ambos (amor e trabalho), paradoxalmente, não caminham juntos. O trabalho é um fardo, enquanto o amor, dizem-nos, é para sonhadores. Quando excluídas de seus empregos ou de suas atividades remuneradas (sejam quais forem), as pessoas tendem a perder o amor-próprio. Você conseguiria se apresentar tranquilamente a alguém sem dizer “o que faz na vida” (ou onde trabalha)? Aprendemos na juventude que nossa capacidade de amar a nós mesmos será moldada pelo sucesso profissional. Seja qual for a tua resposta, considere que amar a si mesmo(a) não tem nada a ver com egoísmo ou narcisismo, exceto em casos patológicos. “Amor-próprio é a base da prática amorosa.” Ao contrário do que se pensa, “se você ama os outros, sabe amar a si próprio(a)”.

UMA ÉTICA AMOROSA

Ouço meus amigos no Brasil com preocupação. O retrocesso político-cultural iniciado em 2016 elevou a obsessão por poder e dominação ao grau máximo. Culturalmente, todas as esferas do país – política, religiões, empresas, famílias, relações íntimas – estão perdendo a “ética amorosa” de que fala bell hooks. “Os valores que sustentam uma cultura e sua ética moldam e influenciam a forma como falamos e agimos. Uma ética amorosa pressupõe que todos têm o direito de ser livres, de viver bem e plenamente. Para trazer a ética amorosa para todas as dimensões de nossa vida, nossa sociedade precisaria abraçar a mudança. (…) A suposição comum de que o comportamento ético acaba com a diversão na vida é falsa.”

Amor é o que se aprende no limite,/ Depois de se arquivar toda a ciência/ Herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade, “Amor e seu tempo”, do livro “As Impurezas do Branco”

Sistemas de dominação se apoiam no cultivo do medo como forma de garantir a obediência. Em nossa sociedade, falamos muito do amor e pouco do medo. De qualquer forma, estamos apavorados o tempo todo. “Como cultura, estamos [nós, americanos] obcecados com a ideia de segurança. Contudo, não questionamos por que vivemos em estados de extrema ansiedade e terror. O medo é a força primária que mantém as estruturas de dominação. Ele promove o desejo de separação, o desejo de não ser reconhecido. (…) Quando escolhemos amar, escolhemos nos mover contra o medo. Abraçar uma ética amorosa significa utilizar todas as dimensões do amor – cuidado, compromisso, confiança, responsabilidade e respeito – em nosso cotidiano.”

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“All you need is love” (Beatles, 1967): mensagem simples, clara e facilmente interpretável

MOMENTO E MOVIMENTO

Insistir na ética de dominação e violência (em todos os âmbitos da existência, incluindo o âmbito do trabalho) faz com que indivíduos que não se veem como vítimas do poder patriarcal tenham dificuldade de levar a sério a necessidade de questionar e alterar o próprio modo de funcionar do patriarcado. “Como qualquer sistema de dominação (como o racismo, por exemplo) o patriarcado precisa que acreditemos que em todas as relações humanas há um lado superior e um inferior, que uma pessoa é forte e a outra, fraca, e, consequentemente, é natural que o poderoso domine quem não tem poder.” Se a ética amorosa prevalecesse, a dominação (de qualquer natureza) não poderia existir. O momento de adotarmos a ética amorosa de bell hooks é agora. Amor é prática diária.

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Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e professor. Apaixonado por artes e psicologia. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros" e "Biografismo". Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP. Mora na Itália desde 2016. //// Journalist, writer, and professor. Loves arts and psychology. Author of "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo", and other books. PhD in Communication Sciences from USP. Lives in Italy since 2016: https://sergiovilasboas.com.br ///// [email protected]

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