A razão e a empatia pelo coletivo

A racionalidade está atravessando tempos difíceis. A cultura popular tem buscado formas cada vez mais assustadoras de aprofundar asneiras e o discurso político tornou-se o maior captador/reprodutor de imbecilidades. Negam-se não apenas fatos cientificamente comprovados mas também a História; e intelectuais são atacados diariamente, acusados de elitismo e falta de senso prático.

Não por acaso, as pessoas têm encontrado razões para culpar a Razão: o culto à razão nos levou a consumir o Planeta e colocar a existência humana em risco; eliminou a ternura e excluiu do jogo os fundamentalistas, que agora tentam recorrer ao caráter e à moral como os únicos pilares de salvação. [A propósito, cientistas da cognição têm demonstrado que somos guiados por nossos corpos e por nossas emoções, mas não tanto pela razão.]

Apesar dos pesares, o autocontrole e o senso de justiça continuam sendo instintos civilizatórios apreciáveis

Ao que parece, atualmente usamos a razão mais para dar uma explicação (a posteriori) ao sucesso de uma eventual intuição vitoriosa do que para raciocionar stricto sensu. No entanto, para compreender os argumentos alheios é preciso empatia, equilíbrio e… Racionalidade. Séculos atrás não era assim, claro. A irracionalidade imperava.

Nossos antepassados se entretinham queimando cães vivos; cavaleiros armados travavam disputas fúteis por onde passavam, usando camponeses como alvo; governantes assassinavam pessoas por terem roubado um cacho de uvas ou por criticarem a roupa do rei; e as execuções eram dolorosas: crucificavam, estripavam, esquartejavam; e as pessoas respeitáveis (“cidadãos de bem”) tinham escravos.

O ponto é que as gerações do século 19 para trás eram capazes de demonstrar empatia por seus parentes e, no máximo, pelos habitantes da mesma aldeia. A ideia de humanidade não existia. Com a expansão da alfabetização e dos transportes, as pessoas começaram a nutrir simpatia por círculos mais amplos: o clã, a tribo, a raça, a nação, e, eventualmente, o mundo em que vivemos.

Nem por isso forças violentas como a ganância e o sadismo foram completamente apagadas da face da terra; nem por isso o autocontrole e o senso de justiça, dois instintos eminentemente civilizatórios, perderam importância (ao contrário, continuam firmes).

Hoje, pessoas apartidárias e de espírito livre que acompanham os noticiários tradicionais (cada vez mais desacreditados) e o movimento das redes sociais (cada vez mais utilizados por pessoas que preferem não raciocinar) percebem um claro retrocesso no entendimento sobre direitos humanos e civilidade. Não é delírio, não. É real. Estamos andando para trás nesse quesito. E está acontecendo não apenas no Brasil, mas em outros países (EUA, Reino Unido, Itália, Alemanha, Áustria, Hungria, Holanda, etc.).

O conservadorismo de costumes agora se expressa assim: “Sou contra absolutamente tudo o que existia antes simplesmente porque sim ou por que vi alguma coisa no Facebook/Whatsapp” de que não gostei”. Na prática, avanços sociais relativos a raça, etnia, gênero, classe, etc., que pareciam extintos, voltaram a ser defendidos por uma parte considerável da população brasileira. Por quê? Três razões:

  1. As pessoas parecem ter perdido a empatia pelo coletivo e, portanto, precisam defender com unhas e dentes seus micromundinhos.
  2. Essas mesmas pessoas vinham se sentindo cada vez mais diminuídas pelos (e excluídas dos) “ambientes inteligentes”, ficando socialmente restritas a pequenas seitas dentro das quais deus e o diabo têm, ambos, carne e osso.
  3. Essas mesmas pessoas então resolveram se juntar e formaram uma compacta manada vingativa disposta a reescrever o passado nos termos de suas maluquices.
Conservadorismos de todos os tipos e nacionalidades voltaram a ser defendidos (em massa)

Sim, na era hipertecnológica, a empatia virou uma abstração. Como você acha que um chinês medianamente instruído deve ter reagido às imagens da calamidade em Brumadinho (MG)? Fácil: antes de tudo, expressou a sua tristeza pela infelicidade daquelas pessoas; em seguida, relembrou o quão precária é a vida na Terra; e, por último, retomou seus problemas pessoais e o “acidente” foi rapidamente esquecido.

Empatia tem a ver com inclusão. Ao longo da História os pensadores não se cansaram de apontar as devidas razões para defendermos práticas includentes; e denunciar a incongruência entre a maneira como os ignorantes brancos (de todas as classes sociais) queriam ser tratados e a maneira como aqueles mesmos ignorantes brancos tratavam grupos específicos (negros, gays, índios, asiáticos, judeus, muçulmanos, cristãos, protestantes, ateus, etc.).

Pensadores agem assim porque sabem que a denúncia das contradições ativa a racionalidade; sabem que criticar a inconsistência de medidas irracionais é eficaz – no longo prazo. No Brasil, uma precária maioria (cinquenta por cento mais um) está agora ocupada combatendo “a ideologia marxista”. Parece que é só isso o que querem. E afirmam-no como se estivessem combatendo todas as ideologias, de um modo geral (risos). Sim, querem um mundo sem ideologias (sic). Esquizofrenia total, percebe?

Essas pessoas de todas as classes sociais (bem ou mal educadas) não entendem que a única maneira de eliminar uma ideologia é substituindo-a por outra e que essa outra pode ser bem pior (bem menos empática) que todas as outras ideologias conhecidas. A empatia pelo coletivo sumiu da pauta brasileira. Caramba: se a empatia não for suficiente para nos tornar mais humanos e civilizados, então, será o fim? Claro que não. Empatia é importante, mas não é suficiente.

A racionalidade é fundamental. É a racionalidade que gera os impulsos para a ampliação do nosso leque de empatias. Sinceramente, não creio que os atuais populismos de extrema direita conseguirão acabar com a cultura da diversidade e com aquela construtiva sensação de que estamos todos no mesmo barco, ou melhor, no mesmo mundo. Explico: a harmonia entre “irmãos” traz benefícios para muitos, enquanto a paz que decorre da vitória de um sobre o outro beneficia poucos.

O debate político e social deveria partir da premissa de que qualquer movimento de expansão dos direitos humanos acaba inspirando outros movimentos (incluindo aí os movimentos que não necessariamente defendiam os direitos humanos). Exemplo: no anos 1960, o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos inspirou os movimentos pelos direitos das mulheres, os direitos das crianças, dos homossexuais e até dos animais.

Em um mundo frágil e distraído, no qual a estupidez tem todas as condições materiais para se propagar planetariamente em poucos segundos, é fácil esquecer que muita gente morreu para podermos ter o que hoje temos (os bens materiais que compramos e os direitos e deveres garantidos por lei). Muita gente morreu porque o avanço civilizatório sempre foi resultado de batalhas longas e muitas vezes sangrentas entre dominantes e dominados.

Assim como ficamos chocados ao conhecer o mecanismo do comércio de escravos e da queima de hereges, as próximas gerações ficarão chocadas (assim espero) com os atuais abusos contra homossexuais, mulheres e negros, com os desastres ambientais, com os sofrimentos de animais em indústrias avarentas, com a posse de armas nucleares para instaurar o terror e com os apelos a textos religiosos para justificar o injustificável. O fato é que a racionalidade tem prevalecido (por um triz, que seja), mas até quando?

Sergio Vilas-Boas

Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e professor. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo" e "A Superfície Sobre Nós" (romance). Mora em Florença. Mais informações: http://www.sergiovilasboas.com.br

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