Para não cair em negação

Negar é recusar-se a aceitar tanto o que ocorre no mundo quanto as próprias experiências. Pode cair em negação uma pessoa, um grupo ou mesmo uma nação inteira. Como? Criando uma espécie de realidade paralela na qual passam a acreditar ferreamente, evitando o que parece intolerável (a negação é um mecanismo de defesa).

No clássico “Sobre a Morte e o Morrer” (1969) a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross introduziu um esquema de interpretação para as tragédias vividas por seus pacientes (principalmente o luto). Segundo ela, os pacientes enfrentam cinco estágios, não necessariamente nesta ordem: negação, raiva, ajuste, depressão e aceitação. Filmes e séries de TV frequentemente usam a fórmula de Kübler-Ross para construir personagens egocêntricos, vitimados ou viciosos.

O problema começa quando a fuga da realidade se transforma em ideia fixa

O problema é quando a fuga da realidade se transforma em ideia fixa, conscientemente. Exemplo: o presidente Donald Trump rejeitou um relatório científico de 1.650 páginas sobre os custos e os perigos do aquecimento global. Em nome de seus apoiadores, disse ao “Washington Post”: “Não acreditamos nisso”.

Segundo o Pew Research Center, apenas 15% dos republicanos conservadores confiam nos cientistas quando se trata de mudanças climáticas (já entre os democratas liberais 70% confiam na ciência). Tamanha negação se explica em parte pelas altas contribuições em dinheiro que as empresas de energia deram à campanha de Trump.

Mas polticagem de baixo nível por si só não explica a negação de resultados de pesquisas sérias. Estudos comportamentais aprofundados indicaram que estamos sempre dispostos a rejeitar fatos e opiniões que contrariam os nossos interesses e as nossas crenças. No fundo, portanto, nega-se por motivos muito pessoais (irracionais, talvez).

A gente percebe que a mudança climática não é mais um hipotético conceito para o futuro. Infelizmente, seus efeitos já se manifestam: desertos se expandem, estoques de água diminuem, espécies desaparecem e ocorrências extremas e extemporâneas – temperaturas gélidas/tórridas, enchentes, furacões, ciclones, secas, etc. – são cada vez mais comuns.

No entanto, precisamos aceitar, ulteriormente:

  1. que existe um abismo entre o ideal de conhecimento “perfeito” (100% comprovável) e a ignorância total;
  2. que vivemos a maior parte de nossas vidas nesse tal abismo;
  3. e que, por mais que a gente tente se informar sobre um assunto para poder tomar a “decisão certa”, mais incertezas podemos ter.

Nas mídias e no meio político (principalmente em época de eleições), as controvérsias são simplificadas para facilitar o raciocínio dos eleitores menos atentos. Para criar uma polarização óbvia, inventa-se um inimigo concreto, com nome e rosto; e todas as outras perspectivas relevantes são apagadas ou minimizadas. As eleições no Brasil em 2018 foram um exemplo desse maniqueísmo tosco.

O jogo de interesses é pesado. Assim como empresas globais de energia (e políticos associados a elas) não querem ouvir falar de aquecimento global, pessoas estritamente religiosas não acreditam que ações humanas possam destruir o planeta (afinal, somente Deus é poderoso, não nós, mortais).

Nada de muito novo nisso: naturalmente, a consciência humana tende a ser estreita e focada em preocupações imediatas. Práticas muito fora da esfera cotidiana costumam ser recusadas arbitrariamente. [Nesse ponto, a mudança climática ainda não faz parte do cotidiano imediato de todos e, portanto, é fácil não dar-lhe a devida atenção.]

Além disso, existe a dissonância cognitiva, ou seja, a necessidade humana de buscar uma coerência em suas cognições (conhecimentos, opiniões e crenças). A dissonância (o desacordo) ocorre quando pelo menos duas atitudes que consideramos certas não condizem com o que realmente praticamos. Muitos conflitos existenciais começam assim.

E como lidamos com essa dissonância? Ignorando os incômodos e criando teorias conspiratórias. Note que a negação é uma forma de autoengano também. A gente se convence de que tudo é (ou não é) tão ruim quanto parece. Para muita gente, é inaceitável ter de enfrentar as turbulências geradas por grandes mudanças, para o bem ou para o mal.

Além do aquecimento global, outros dois temas cientificamente consensuais têm gerado controvérsias entre leigos: a evolução biológica e a vacinação infantil. Membros do establishment político têm se posicionado contrariamente às conclusões de pesquisas nesses três âmbitos, e não adianta chamá-los de tapados.

Autoengana-se quem acredita que os problemas do passado eram mais fáceis de resolver

Negações da Ciência e da História estão pipocando não apenas no Brasil mas em outras partes do mundo. Nos países ocidentais, por incrível que pareça, quanto maior o PIB e o nível de alfabetização científica, mais óbvias são as reticências dos cidadãos em relação à ciência. Os cientistas afirmam que os negadores estão desinformados e que uma melhor divulgação científica certamente os faria mudar de ideia, mas não é bem assim.

Parece haver ainda um forte apego a um passado mítico, um tempo perdido no qual “as coisas eram mais leves, sólidas e favoráveis”, mas também é autoengano acreditar que os problemas atuais são fruto de uma decadência inexorável da humanidade (até porque o passado nunca se repete tal qual). Décadas de pesquisa empírica mostraram que grande parte dos negacionistas é movida por preconceitos, conservadorismos e intuições distorcidas sobre correr riscos.

Mas quem nega realidades indubitáveis tem consciência de que está negando? Nem sempre. E como escapar dessa armadilha? Não há uma receita pronta. Em linhas gerais, o ideal é (1) identificar os impulsos que te levam a recusar a verdade, (2) consultar pessoas de sua confiança, mas não aquelas que sempre dirão o que você quer ouvir, (3) evitar procurar um bode expiatório para suas frustrações e (4) viver de acordo com a (sua) realidade.

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PS: assista “Negação” (2016). O filme reconstrói o famoso julgamento que, no início de 2000, colocou em oposição os historiadores do Holocausto David Irving e Deborah Lipstadt em um tribunal britânico. Com base em evidências incontestáveis, Lipstadt rotulara Irving de “negacionista” e, por essa razão, ela foi chamada a defender-se contra a acusação de difamação. Em seus livros, Irving havia questionado a existência de um projeto de extermínio na Alemanha nazista. Segundo ele, os judeus dos campos de concentração morreram de tifo ou alguma outra doença, e câmaras de gás em Auschwitz nunca existiram…

Sergio Vilas-Boas

Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e professor. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo" e "A Superfície Sobre Nós" (romance). Mora em Florença. Mais informações: http://www.sergiovilasboas.com.br

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