Mindfulness com música funciona

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Sou músico. Baterista. Tocar bateria é uma atividade complexa, do ponto de vista físico, porque a variedade de movimentos é ampla. Você tem de usar muito os músculos dos braços, das mãos e das pernas, e estar inteiramente concentrado. Por essas e outras razões defendo que o aprendizado musical e a atenção plena (mindfulness) sejam complementares. Para quem não sabe, a atenção plena é um tipo de meditação. Fiz alguns experimentos comigo mesmo e com meus alunos e te garanto: mindfulness com música funciona.

Mindfulness com música funciona

Curiosamente, nós, ocidentais, somos a última cultura do mundo a descobrir e aceitar os benefícios da mindfulness. A atenção plena é um exercício libertador. Tanto para músicos quanto para quem não toca nenhum instrumento mas aprecia a arte musical. Melodias e sons são ótimos para a concentração. Além de afetarem positivamente o humor e as emoções, ativam as redes neuronais do cérebro que nos conectam ao aqui agora.

TEMPO PRESENTE

Praticar mindfulness é se esforçar para estar completamente envolvido com o que está acontecendo ao nosso redor neste exato momento. Não há nem metas nem expectativas a alcançar. Você só precisa canalizar toda a sua atenção para o momento presente e aceitar os pensamentos e sentimentos que eventualmente tentarem se intrometer na sua concentração. Sem julgá-los. Quando surgirem, você simplesmente os põe de lado e volta a perceber/sentir o entorno e o que está ocorrendo em seu próprio corpo.

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Os zen-budistas chamam de “mente macaco” aquela constante tagarelice dentro da nossa cabeça. Porém, ao sintonizar-se com o momento presente podemos usar a mente como uma espécie de holofote, direcionando o foco para diferentes percepções e sensações como sons, cheiros, imagens e, principalmente, sentir/ouvir a nossa própria respiração. A ideia é parar de pensar e sintonizar-se com o fluxo da vida tal como ela é/está.

BENEFÍCIOS

No geral, a gente passa boa parte da vida distraídos, perdendo detalhes importantes da existência. E nem percebemos mais a pouca atenção que damos às nossas atividades diárias. Nossa mente adora fazer julgamentos, pensar no futuro, ruminar eventos passados ​​e fazer interpretações e conjeturas. Embora a atenção plena não seja nenhuma cura milagrosa, ela pode mudar essa perspectiva e a maneira como encaramos os fatos.

Cientificamente falando, a prática regular da atenção plena altera a bioquímica do corpo, gerando diversos benefícios, como: diminuir o sinal de resposta do corpo ao estresse; aumentar a sensação geral de bem-estar; ativar as áreas do cérebro responsáveis ​​pela atenção, pela regulação emocional e pelo senso de perspectiva; e ampliar a capacidade da nossa memória de trabalho, melhorando a produtividade e o desempenho.

VAMOS COMEÇAR?

A música é uma forma de arte, mas também um ativador de memórias. Embora os membros de grupos musicais sejam colaborativos por natureza, espera-se que cada um tenha alta performance durante uma apresentação. Sendo assim, autocríticas excessivas, comparações desnecessárias e ansiedades são comuns. Por meio da atenção plena, porém, nós, músicos, podemos tocar com mais concentração e mais autocompaixão.

Mindfulness com música funciona

Músicas criam em nós (todos nós) um senso de continuidade, paz e segurança. Vamos começar, então? Escolha qualquer faixa musical da sua preferência e deixe-a pronta para o play. Em seguida, dê umas boas respiradas profundas e sinta o seu corpo pesando sobre a cadeira, o tapete, o gramado – enfim, você escolhe onde quer estar. Perceba as sensações que emergem. Dê atenção ao ar que entra e sai dos seus pulmões. Sentir a respiração é fundamental.

Preste atenção total às sensações do seu inspirar/expirar. Não tente mudar o modo como você respira. Apenas observe o que acontece à medida que seus pulmões se enchem e se esvaziam. Perceba como os seus pulmões se dilatam e se contraem, e o que acontece quando o ar entra e quando o ar sai. Assim que você se sentir à vontade e sintonizado com essa prática de respiração, pressione o play do seu aparelho.

SONS EM SINTONIA

A partir de agora te convido a fechar os olhos e focar apenas na música e em como ela se desenvolve. Há tantas coisas para serem exploradas dentro de uma música… Cada música é um universo. Tornar consciente esse processo de interação com a música pode transformar totalmente a sua experiência de audição e te abrir perspectivas inéditas. Aqui estão algumas maneiras de explorar o potencial de uma música:

  1. Preste atenção ao timbre dos instrumentos. Suponha que é a primeira vez que você ouve certo instrumento. Ouça os diferentes sons produzidos e observe se são claros ou confusos; se são suaves ou fortes. À medida que a música prossegue, note também como os diferentes instrumentos se comunicam entre si.
  2. Sinta as mudanças na dinâmica e na batida. Sem julgar nem analisar. Procure familiarizar-se com o fluxo rítmico. O ritmo tem papel importante. A energia (contagiante) da música vem do seu ritmo.
  3. Absorva o clima da música. Preste atenção aos sentimentos que ela te transmite. É otimista e alegre? Ou talvez tenha um tom solene? Observe como ela evolui progressivamente no sentido de criar alguma tensão ou expectativa. Te soa melódica ou dissonante?
  4. Se a música que você escolher tiver sons vocais, concentre-se no tom único e no alcance da voz do(a) cantor(a). Que tipo de voz ele/ela possui? Uma voz suave ou uma voz poderosa, sustentada longamente? Ouça atentamente o tom, a emoção e a(s) melodia(s) expressas.
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PARA MÚSICOS

Como eu te disse, sou baterista. Uma atividade musical bastante física. Mas na verdade todos os instrumentos musicais requerem alguma coordenação motora-muscular. Você pode aprender a praticar movimentos conscientes para qualquer tipo de instrumento musical. Os músicos, aliás, dão grande atenção aos pontos de contato entre o corpo e o instrumento, sabia?

Observe como é para você a sensação de estar consciente em relação ao seu corpo executando uma certa música, mas sem pensar demais ou analisar demais o que acontece durante o processo. Apenas sinta. Permita que seu corpo use toda a memória muscular acumulada desde que você começou a aprender até hoje. Importante resgatar aquela intrínseca alegria de tocar.

Mindfulness com música funciona
O baterista inglês Gideon Waxman, autor deste texto

FOCO ORIENTADO

A atenção plena é uma abordagem lógica e direta, disponível gratuitamente para qualquer pessoa que estiver a fim de aprendê-la e desenvolvê-la. Os principais sistemas de saúde do mundo, incluindo o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, adotam a atenção plena como uma ferramenta de apoio para a redução dos sintomas de depressão e ansiedade. Profissionais de Wall Street e atletas profissionais também a adotam cotidianamente.

Repito: não se trata de um lugar onde a gente deva ir nem de uma meta pela qual a gente deva batalhar. Simplesmente guiamos nossa consciência para o que somos capazes de sentir agora. Ouvir música é um modo maravilhoso de praticar a atenção plena, na minha visão. Os aspectos de uma música para os quais podemos orientar nosso foco são incontáveis. Então, permita que todas as experiências ocorram da maneira mais natural possível.

Publicado originalmente no DrumHelper. Versão em português criada por Sergio Vilas-Boas com o consentimento do autor.

/// Se você curte escrever mas nem sabe como começar, leia isto. ///

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Gideon Waxman

Gideon Waxman é baterista desde os dez anos. Estudou música na Universidade de Westminster, Inglaterra. Tocou em bandas de jazz e soul e em orquestras. Professor de música, criou o DrumHelper, um site com diretrizes e conselhos para bateristas e percussionistas de todos os níveis.

  1. Thilde Rocha

    Caro amigo,
    Tenho lido seus textos, o que me dá muito prazer. Pena que não te contei antes que os estava lendo. São temas que me fazem dar aquela respirada profunda (por falar em mindfulness), como um tipo de rito para o que é importante. Tudo o que vc escreve, eu recebo assim: um convite pra ser uma pessoa melhor. Para mim e pros outros. Vou caminhando, então. Saudades de ti e da Pat.
    Beijocas Thilde.

    • Sergio Vilas-Boas

      Thilde, querida, que surpresa boa. Te confesso: eu sempre quis saber se você lia o “Rep Ats”.
      Sabe por quê? Porque eu supunha que você iria sentir (ao lê-lo) exatamente o que você acabou de me dizer que tem sentido.
      Saudades tamabém. Beijos (aos quais se junta Pat).

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