Podemos aprender com as plantas

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De plantas, eu nada conhecia até ontem, infelizmente, mas a relação delas com Patrícia vinha me intrigando. Elas se comunicam, revelam-se, surpreendem-se. Mantêm uma relação de intimidade fluente e próspera. Daí, pensando na mútua admiração delas e passeando por livrarias aqui em Florença, dei de cara com um livro (de não ficção) tão brilhante quanto inusitado: “Le Emozioni Nascoste Delle Piante” (“As Emoções Ocultas das Plantas”), do escritor francês Didier Van Cauwelaert. Caramba: quanta coisa podemos aprender com as plantas.

Podemos aprender com as plantas

HISTÓRIA INCOMPLETA

Aquela velha história de que Noé levou para a arca “criaturas vivas”, ou seja, um casal de cada espécie animal, sempre me pareceu estranha. Nenhuma menção às plantas. Seriam elas “criaturas mortas”, por acaso? O fato é que o curso da história da ciência ao longo de séculos corrigiu essa distorção dos testamentos: “As plantas não são apenas capazes de viver”, escreveu o botânico italiano Stefano Mancuso. “Elas são capazes de sentir. E são até mais sofisticadas nisso do que muitos animais.”

Em grande parte, a desvalorização das plantas como organismos autônomos decorreu de duas noções equivocadas: 1) Plantas não se movem – logo, são “seres incompletos”; 2) Animais comem plantas, não o contrário. No entanto, a vênus papa-moscas (dionaea muscipula) se move para comer lesmas, nos lembra Mancuso, acrescentando que “a baleia azul não é a maior criatura do planeta”, mas sim a sequoia gigante, que pode pesar até duas mil toneladas.

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MOVIMENTO E INTELIGÊNCIA

Em “O Poder do Movimento nas Plantas” (1882), Charles Darwin liquidou a velha noção de que as plantas eram inertes. “Não existe estrutura mais admirável nas plantas, no que diz respeito à função, do que a extremidade da radícula [cada um dos filamentos mais delgados de uma raiz]”, escreveu. “A extremidade da radícula atua como o cérebro das plantas, recebendo impressões dos órgãos dos sentidos e dirigindo vários movimentos delas.”

Esse trecho na verdade sintetiza e consolida três descobertas: plantas movem-se, têm inteligência e comunicam-se. Mas comunicam-se com quem? Com outras plantas e com outras espécies, inclusive a espécie humana. O processo comunicativo das plantas tem a ver com polinização, principalmente. Mover o pólen de uma flor para outra é uma tarefa que não realizam sozinhas. Precisam de insetos, pássaros, répteis e mamíferos (ratos e morcegos, por exemplo) para o transporte de pólen.

PARAÍSO LOGO ALI

Em um mundo em que tudo é influenciado pela ação humana, a ideia de natureza parece restrita às parcelas intocadas (supostamente paradisíacas), que merecem preservação. Mas natureza é qualquer lugar onde seres vivos compartilham espaços, substâncias e informações relevantes para a sobrevivência. A natureza (com ou sem a presença humana, tocada ou intocada, verde, azul, branca ou cinza, não importa) é a expressão máxima da existência.

Convenhamos: aqueles supostos paraísos (zonas protegidas e bem manejadas) ficam geralmente distantes de nós e têm regras de visitação implacáveis. Viajar até esses lugares e se manter neles por alguns dias é custoso. Mais: todos nós, urbanoides, passamos menos tempo ao ar livre do que deveríamos, apesar das evidências científicas de que o contato com natureza faz bem. O excesso de cimento e asfalto na vida provoca doenças e fobias, sabe-se. Daí que precisamos ir ao encontro das vegetações.

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O SONHO DELAS

Como escritor, há décadas resido no reino do abstrato, feito de ideias, hipóteses e interpretações. Ultimamente, porém, repensando minhas atitudes (risos), comecei a prestar mais atenção em paisagens. Paisagens em sentido amplo, com ou sem seres humanos nelas. Ponto pacífico: há sempre alguma natureza ao nosso alcance. Jardins, parques, praias, montanhas, planícies, desertos, etc. Talvez não sejam paradisíacos- no sentido elitista ou idealista da coisa -, mas e daí?

Ao longo de bilhões de anos antes do Homo Sapiens aparecer as plantas já existiam. Você até pode resumir o curso da vida na terra poeticamente assim: as bactérias inventaram as plantas, que, por sua vez, inventaram os animais, família da qual somos membros. Nas culturas xamânicas a definição de “ser humano” é até mais literariamente bela do que muitos conceitos complicados da filosofia e da antropologia: “o humano é o sonho das plantas”, diziam os xamãs.

IMAGINAÇÃO

“As Emoções Ocultas das Plantas” é um ensaio de alto nível, com ótima pesquisa e texto elegante, numa linha praticamente jornalística (além de apaixonado por plantas, Didier é romancista). “A palavra chave da evolução, antes mesmo da seleção natural, é imaginação”, escreve. “A imaginação transcorre por tentativa e erro. Antes de chegar à esponja do mar, por exemplo, a natureza experimentou inúmeros modelos.” [A imaginação abraça o mundo inteiro, sublinhava Einstein.]

Didier explora algumas das emoções das plantas que possuem interface com as emoções humanas. Exemplos: percepção (do perigo), oportunismo, ilusão, sensibilidade à adulação, empatia, compaixão, solidariedade e dor. Sobre a percepção de um perigo, as abóboras são um ótimo exemplo, aliás. Para se protegerem de uma joaninha voraz, as abóboras se defendem tornando tóxicas as suas próprias folhas, ao aumentar os taninos.

ILUSÕES E ESFORÇO

Exemplo de planta com dom de iludir é a helicodiceros muscivorus. Nos Açores é conhecida como serpentária. Essa planta atrai aquelas moscas grandes imitando perfeitamente o odor nauseabundo de um animal morto. Atraídas pelo mau cheiro, as moscas depositam seus ovos nos órgãos reprodutores da planta e, ao fazê-lo, asseguram a fecundação, mas não só isso: as moscas também transportam, “sem saber”, o pólen de outras flores malcheirosas, ajudando a perpetuar as helicodiceros.

E pensar que essas plantas enganadoras se aproveitam de insetos há 135 milhões de anos. Ah, o tempo. Tão imprescindível quanto impalpável. Enquanto a gente se mata para fazer o máximo (sem parar), as plantas (e os animais) se esmeram em colocar em prática a lei do menor esforço: “Nas plantas, nenhuma ação é inútil, nenhuma energia é gasta em vão. Cabe a nós implorar sua clemência ou apelar para seu senso econômico”.

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ADULAÇÕES

As plantas reagem aos perigos e às hostilidades do ambiente, mas também às “boas ações”, segundo Didier: “O caso do agricultor mexicano José García Martinez é emblemático. A qualidade e a produtividade por hectare de suas beterrabas, cebolas e couves atraíram cientistas e agrônomos do mundo inteiro. Há quarenta anos Martinez nutre as suas plantas com elogios e palavras doces, o melhor dos fertilizantes, segundo ele”.

Patrícia descobriu recentemente a barba-de-velho, que não precisa de terra. Sua energia vital vem da luz e da umidade do ar. Se ela se sentir desidratada, muda da cor verde para a cor “prata”, e então basta dar-lhe uns borrifos para que ela manifeste gratidão e se restabeleça. Como escreve Didier, se é verdade que o humano é o sonho das plantas (segundo os xamãs), resta sabermos se conseguiremos parar de fazer desse sonho um pesadelo. Caso contrário, voltaremos a ser plantas. Isso, na melhor das hipóteses (risos).

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Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e tradutor. Apaixonado por artes e psicologia. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros" e "Biografismo". Mora em Florença, Itália. //// Journalist, writer, and translator. Loves arts and psychology. Author of "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo", and other books. Lives in Florence, Italy: https://sergiovilasboas.com.br ///// [email protected]

  1. Helga

    Sergio, fui sua aluna na primeira turma da pós-graduação em Jornalismo Literário em SP. Infelizmente acabei não concluindo, mas fico feliz em ter te conhecido porque seu blog é uma leitura muito prazeirosa. Que bom que recebi esse convite por e-mail e hoje posso entrar em contato com suas ponderações sempre interessantes. Maratonei boa parte dos posts e sigo fã. Um brande abraço!

    • Sergio Vilas-Boas

      Olá, Helga, eu me lembro de você.
      Uma honra para mim ter você como leitora do “Rep Ats”.
      Fico feliz também por ter te atingido positivamente de alguma forma.
      Abraço ! Sergio

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