A gratidão combate o rancor

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A gratidão é um tipo de emoção. “Ser grato ao próximo ou à existência como um todo é precondição para reduzirmos as tensões”, afirma Piero Barbanti, professor de neurologia na Universidade San Raffaele (Roma): “Viver com gratidão é particularmente vantajoso para o cérebro também. Sendo gratos, nosso cérebro gasta menos energia para ‘remover’ do ambiente os rancores emanados pelas pessoas beligerantes e revanchistas. Deixar-se inspirar pelo senso de gratidão é mais ou menos como navegar com o vento em popa”. Entre tantos benefícios, como veremos, a gratidão combate o rancor, o que, nestes tempos duros, não é pouco.

gratidão combate o rancor

TRÊS DIMENSÕES

Nas últimas décadas, a gratidão deixou de ser um assunto exclusivamente ligado à filosofia moral e religiosa e ganhou espaço científico nas neurociências e na psicologia clínica. No âmbito da Psicologia Positiva, corrente de pensamento que propôs uma visão diferente sobre o entendimento da personalidade, a gratidão é uma das áreas de estudo. [A Psicologia Positiva busca entender o que nos faz bem e as armadilhas mentais nos impedem de gozar a vida, sem grande ênfase em doenças, síndromes e distúrbios.]

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Um dos segmentos de pesquisa mais desenvolvidos da Psicologia Positiva é exatamente a gratidão, estudada em três dimensões: a gratidão como emoção (alguém me ajuda de algum modo e exprimo meu reconhecimento por isso); a gratidão como propensão a perceber o que a vida nos oferece de melhor (do emprego que ajuda a pagar as contas no fim do mês à contemplação de uma obra de arte, por exemplo); e a gratidão como forma de expressão (verbal e não verbal) em contextos sociais e interpessoais variados.

“OBJETIVO SAÚDE

As neurociências (usando neuroimagens) também têm se dedicado ao tema, e algumas pesquisas comprovaram que um indivíduo predisposto à gratidão é capaz de ler a realidade de modo mais favorável a si mesmo. “Quem tem um senso de gratidão bem desenvolvido apresenta níveis mais elevados de ocitocina, substância que cumpre funções importantes no cérebro”, explica o professor Piero Barbanti em um dos textos de “il Potere della Gratitudine” (“O Poder da Gratidão”), livro elaborado a partir dos conteúdos do programa “Obiettivo Salute”, que vai ao ar na Radio 24, aqui na Itália. As histórias de ouvintes sobre gratidão foram enviadas à rádio e as melhores foram selecionadas para o livro. “As histórias trouxeram luz à tétrica atmosfera da pandemia, no início”, lembra Nicoletta Carbone, âncora do programa.

Piero Barbanti define a ocitocina como “o hormônio do abraço”, por ela estar na base da empatia entre indivíduos, mas também como “o hormônio da lealdade”, por ela cumprir o papel de nos ajudar a manter relacionamentos sólidos e autênticos: “Do ponto de vista neurológico, a gratidão é uma emoção social mais visível em pessoas biologicamente capazes de analisar com precisão o ambiente circundante e predispostas a estabelecer vínculos afetivos estáveis”.

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MAIS COMPREENSÃO

Diversos experimentos mostraram, segundo Piero Barbanti, que a gratidão aumenta a resiliência, ou seja, a nossa capacidade de suportar o estresse. Sim, o termo estresse é usado normalmente no dia a dia como uma experiência negativa. Porém, do ponto de vista neurocientífico, o estresse é uma reação positiva e até salvadora, na medida em que nos permite escapar dos perigos e reconstruir um equilíbrio biológico e psíquico quando os ambientes que frequentamos sofrem perturbações: “Surgem problemas quando o mecanismo do estresse é estimulado com muita frequência. Nesse caso, sua ativação se torna crônica e foge ao controle”.

A resiliência, no caso, é a couraça que nos protege do estresse. Favorecida pelo sentimento de gratidão, a resiliência nos distancia das situações estressantes, o que nos permite enfrentá-las com estratégias mais “inteligentes” – sem medos, apatias e revoltas, por exemplo, sentimentos que geralmente nos fazem mais mal do que bem: “Um estudo conduzido pelo célebre António Damásio e sua equipe na Universidade de Los Angeles mostrou que a gratidão ativa o senso de moralidade e de ética, induz o bem-estar psicofísico e nos leva a compreender melhor as pessoas com as quais convivemos”.

ATO DE CORAGEM

Para religiosos, é a gratidão que gera a sensação de felicidade, não o contrário. “Somos mais gratos por aquilo que é valioso para nós e que nos é dado gratuitamente, algo que não necessariamente fizemos por merecer. Refiro-me principalmente a atitudes que não têm um valor monetário”, escreveu o teólogo e sacerdote vienense David Steindl-Rast, conhecido como Irmão David (que participou do diálogo intercultural budista-cristão aprovado pelo Vaticano em 1967): “Nada nos deixa mais felizes do que quando todos estamos felizes”.

Têm papel importantíssimo no fomento à gratidão as crenças religiosas, que veem a experiência de agradecimento como um ato de coragem – a coragem de reconhecer o próprio débito (com outras pessoas, com o contexto e com as divindades) e de se colocar na posição de querer retribuir de algum modo o que foi recebido. “Nesse sentido, o sentimento de gratidão também pode ser interpretado como a trilha que leva a um estado de equilíbrio emotivo entre a tensão de sentir-se devedor e o ato da retribuição”, reflete Guendalina Graffigna, diretora do EngageMinds.

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EXERCÍCIOS

No entanto, a gratidão é tão espontânea quanto difícil de valorizar em uma sociedade que corre desenfreadamente na direção do crescimento econômico e da superficialidade interpessoal. Ainda bem que a gratidão não tem a ver apenas com um “estado psicológico potencial” (sentimento de benevolência voltado a quem nos faz o bem). Na verdade, a gratidão é mais que isso. Ela é um motivador comportamental que direciona o exercício da empatia e da reciprocidade. Isso implica relações de confiança consigo mesmo (uma autoestima saudável) e com os outros, evidentemente.

Muitos exercícios práticos de gratidão vêm sendo difundidos por profissionais da área de saúde. Alguns exemplos: apreciar o que ocorre ao nosso redor no momento presente, empregando técnicas de meditação ou mindfulness; os contatos com a natureza (mar, montanha, campos, bosques, parques, jardins, etc.), que, além de tudo, melhoram a nossa saúde; escrever cartas de reconhecimento para pessoas que nos ajudaram – você não tem que enviá-las, necessariamente, até porque o ato de escrevê-las já produz efeitos psíquicos valiosos, segundo pesquisadores.

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Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e tradutor. Apaixonado por artes e psicologia. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros" e "Biografismo". Mora em Florença, Itália. //// Journalist, writer, and translator. Loves arts and psychology. Author of "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo", and other books. Lives in Florence, Italy: https://sergiovilasboas.com.br ///// [email protected]

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