Por que vim para a Itália

159 Shares

Então, por que vim para a Itália (Florença) em 2016? É uma história longuíssima, mas vou tentar resumi-la em poucas linhas. Assim: antes de vir eu havia feito tudo o que quis como jornalista, escritor e docente. Fui ótimo repórter, ótimo editor, ótimo freelancer, ótimo professor de reportagens e de biografias & perfis.

por que vim para a Itália

Como escritor, ganhei o Prêmio Jabuti em 1998 com o livro “Os Estrangeiros do Trem N” (neste 2021 sai uma nova edição). Publiquei ao todo dez livros de gêneros diversos e organizei cinco coletâneas de outros autores.

Aos 50 anos de idade, porém, só me ofereciam o velho e chato “mais do mesmo”. O maior problema nem era tanto a repetição e a falta de novos desafios. As circunstâncias (de trabalho e de remuneração) se degradavam ano após ano, desde 2001.

Newsletters

Outros dois fatores importantes: 1) o Brasil me deprimia. A extrema direita raivosa e burra avançava, destilando ódio, como nos EUA. 2) depois de vinte anos aceitei que São Paulo nunca mudaria, nunca se tornaria uma cidade “humanizada”.

PASSAPORTES

Quando me senti realmente estagnado e sem saída (não é nada bom sentir isso) em São Paulo, achei que devia resgatar um projeto que me atraía desde bem jovem: ficar longe do Brasil por tempo indeterminado.

Já tinha passaporte italiano (meu avô materno era italiano). A Itália nunca esteve em meus planos como país de residência, confesso. Meus olhos sempre estiveram voltados para Nova York, onde morei entre 1992-1994.

Optar pela Itália era conveniente. Ideia da Patrícia (minha esposa), não minha. Juntos, a gente tinha visitado (como turistas) Roma, Veneza, Florença e Siena. Não tínhamos a menor ideia de como seria viver na Itália.

E por que Florença? Das poucas cidades italianas que conhecíamos Florença foi a que mais nos impressionou. Beleza é fator importante, assim como o cosmopolitismo é um valor (para mim). Aqui temos ambos.

Precisávamos também de experiência em cidade “pequena”. Moramos sempre em metrópoles caóticas (Belo Horizonte, São Paulo e Nova York). Viemos para Florença em 2016. Era só um sabático, mas decidimos ficar.

GATOS

Junho de 2016. Dos nossos três gatos, que estiveram conosco desde bebês, restara a Filó, já velha (13 anos de idade) e com sérios problemas renais. O procedimento para obter o “passaporte” dela durou quatro meses.

Mas lá estava ela no avião conosco, assustada, fechada em si mesma. Entre Guarulhos e Roma, hidratei-a usando uma seringa. Foi meio tenso.

por que vim para a Itália

Em Roma (16/10/16), no hotel, ela fez xixi (e comeu) pela 1ª vez em 24 horas. Chegamos em Florença de trem no dia seguinte. Havíamos alugado por 30 dias um apto barato (via Airbnb) em Scandicci, onde a gente chegava fácil de metrô a partir da estação central de Florença.

A jornada estava apenas começando, mas não faltavam motivos para brindar. E brindamos. O próximo desafio era alugar um apto no centro histórico. Isso foi bem mais complicado do que imaginávamos. 

APARTAMENTO (1)

Em 2016, quando chegamos na Itália, as Città d’Arte italianas estavam vivendo o boom do fenômeno Airbnb. No centro histórico, onde a gente queria morar (onde moramos ainda hoje), nenhum proprietário estava disposto a fazer contrato longo de aluguel.

Praticamente 90% dos imóveis disponíveis tinham sido convertidos em “hotéis”, e os preços atingiram níveis insanos. Italianos fugiam do centro, por causa dos custos e da confusão crescente de milhões de turistas.

Vimos uns 50 imóveis ao longo de um mês. No geral, eram um lixo: mal localizados, mal equipados, destruídos e/ou cafonas. De todos esses, três nos pareceram interessantes. Dois eram impagáveis. Um parecia perfeito, mas…

Um casal (italiano) visitou o imóvel no mesmo dia. E gostaram. Aí não teve jeito. Eles tinham holerites para comprovar renda. Nós, não. Na época, eu não falava italiano. Negociava tudo em inglês.

APARTAMENTO (2)

Diante da dificuldade de encontrar um imóvel que valesse a pena, reduzimos nossa lista de exigências. Quatro itens eram imprescindíveis, porém: boa localização, silêncio, luz natural e poder fixar residência (oficialmente). Este 4º item era fundamental para tirar documentos, abrir conta bancária, ter acesso ao sistema público de saúde, etc.

Bateu desespero. Nosso orçamento não era folgado, estávamos temporariamente em um flat caríssimo (já no centro) e com a vida prática emperrada.

por que vim para a Itália

Mas fomos conhecendo pessoas e aprendendo a lidar com a cultura italiana (hiper burocrática). Por fim, conseguimos um apto velho, feio, mas não tão caro. Tinha o principal: silencio, iluminação e ficava no coração de um bairro cult (Santo Spirito). Da janela víamos a Basílica di Santo Spirito e o nosso pequeno terrazzino florido (foto acima).

Ufa! Moramos nesse três anos e meio. Foi maravilhoso. A gente passava os fins de tarde e as noites no terraço, olhando as estrelas, a lua e conversando sobre a vida e sobre a nossa jornada até aquele dia. A gente continua morando no centro, agora num apto moderno, reformado há poucos anos.

Florença é linda. Em comparação com São Paulo e Belo Horizonte, nossa qualidade de vida aqui é muito alta. Mais: finalmente internalizei que beleza também é importante na vida. Faz bem ao meus olhos e à alma. Em breve te conto outros capítulos da minha história recente.

/// Saiba mais sobre o Sergio Vilas-Boas. ///

/// Siga o Sergio no Instagram ///

/// Precisa de um produtor de conteúdos? Leia isto. ///

Newsletters

159 Shares

Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e tradutor. Apaixonado por artes e psicologia. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros" e "Biografismo". Mora em Florença, Itália. //// Journalist, writer, and translator. Loves arts and psychology. Author of "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo", and other books. Lives in Florence, Italy: https://sergiovilasboas.com.br ///// [email protected]

Write a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

conteúdo protegido
159 Shares 1.6K views
Share via
Copy link
Powered by Social Snap