Afinal, somos todos hipócritas?

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Tempos duros. Pandemia, depressão econômica, governantes perversos. Negação da ciência, da historiografia e dos fatos cotidianos. Extremismos (do tipo Talibã), desprezo às Leis, apologia à grosseria e à incivilidade, polarizações insanas, etc. Estes e outros horrores compõem um triste Espetáculo de Desespero. A carência de referenciais humanísticos é desconcertante. No Brasil, mais: revoltante. Com a hipocrisia presente em todos os quadrantes, vem a pergunta: afinal, somos todos hipócritas?

Somos todos hipócritas?

SER HIPÓCRITA

Hipocrisia é pretender adotar princípios e práticas com vistas a uma certa reputação, mas agir em desacordo com esse ideal; é fazer pregação de regras sobre o que acredita ser o certo e o errado, mas não suportar o peso cotidiano de ter que seguir à risca as regras defendidas em voz alta.

O hipócrita também se acha superior: suas crenças são mais elevadas que as crenças dos outros; seus desejos, mais autênticos; suas emoções, mais puras; suas interpretações, mais sensatas. Esse senso de superioridade moral pode resultar em fanatismos e violências. Enfim, resumindo, pessoa hipócrita é aquela que:

  • prega (em voz alta) um único padrão de conduta;
  • cobra das outras pessoas a prática cotidiana desse padrão;
  • descumpre, no todo ou em parte, o exercício desse padrão;
  • condena quem se desvia do padrão (mesmo ciente de já ter agido do mesmo modo);
  • ignora o fato de que ter um único padrão de conduta é um objetivo inatingível.

TRANSGRESSÕES

Quando falamos em descumprimentos, desvios e transgressões, nos vêm à mente grandes contradições político-religiosas como: defender que direitos e deveres sejam iguais para todos e, na prática, agir em prol de interesses individuais ou grupais; defender a descriminalização da maconha, mas reprimir severamente o(a) filho(a) por ter dado uns tragos na festinha; pregar que o aborto é um ato contrário à vida, mas não hesitar em levar a filha para fazer um.

Mas hipocrisia não diz respeito apenas a “grandes desvios de conduta”. No dia a dia, há moralismos rasos como: o chefe que prega o viva e deixe viver, mas fica revoltado com você por você ter decidido sair da empresa; os adeptos da fidelidade que (se) traem repetidamente; os gestores do Terceiro Setor que desviam dinheiro dos necessitados; o síndico que na reunião afirma que vai priorizar as obras fundamentais, mas no dia a dia faz política rasteira em prol de reformas meramente estéticas.

CUMPLICIDADES

No atual clima político brasileiro, tão nonsense que ninguém mais sabe o que pensar nem o que dizer, a acusação de hipocrisia tem sido uma arma poderosa. Se alguém estabelece algum tipo de princípio moral e chega perto de violá-lo (nem é preciso violá-lo efetivamente), é como se tivesse perdido o direito de dizer qualquer coisa sobre aquele tema/assunto. E quanta gente se enfurece com a hipocrisia de um político, mas absolve a hipocrisia de outro (a quem apoia desde sempre).

Mais: quanta gente critica a hipocrisia em si, mas não as suas supostas causas (condenam padres pedófilos, por exemplo, mas absolvem quem os protegeu, a instituição chamada “Igreja Católica”). E há ainda os que condenam a defesa do meio ambiente (como um todo) simplesmente porque descobriram que um ativo militante ambientalista não separa corretamente o lixo na casa dele. Te pergunto: a cumplicidade com a hipocrisia seria uma forma de hipocrisia também? Pense aí.

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Cena do filme “Hannah Arendt” (2012), que aborda a “Banalidade do Mal”

O MAU DA MALDADE

Uma das lições mais importantes que podemos aprender com as atrocidades ocorridas no século 20 e neste início de século 21 – genocídios, terrorismos, manipulação dos processos judiciais por juízes corruptos e/ou parciais, escândalos corporativos acobertados por acionistas, etc. – é que atos horrendos não são cometidos apenas por monstros. O filme Hannah Arendt (2012), sobre um período da vida da filósofa Hannah Arendt (1906-1975), aborda essa tema com muita competência.

Em reportagem para “The New Yorker” Arendt descreve o criminoso Adolf Eichmann, ex-coronel da SS, como “um tecnocrata sem convicções, transformado em mero instrumento de extermínio”. A maldade brutal que se banalizou na Alemanha Nazista se sustentou, segundo Arendt, em dois fatores: ausência de autorreflexão sobre os absurdos perpetrados e obediência incondicional aos critérios de conduta impostos por Hitler. Arendt ficou famosa por sua tese sobre a Banalidade do Mal.

TOLERÂNCIAS

Tanto o mal quanto o bem podem se sustentar com mentiras. O autêntico hipócrita é um mentiroso, evidentemente, mas não um mentiroso comum. O mentiroso comum defende sua mentira como se ela fosse verdade, desfruta os benefícios de suas enrolações (sem culpas) e por fim recolhe-se em seu mundo de sucessos fraudulentos. A pessoa hipócrita vai além. Assume o papel de promotora pública da verdade, a sua verdade; e se ela ainda por cima for do tipo que curte armas e vinganças, ameaçará “encher a sua boca de porrada”, entre outros absurdos.

Um estudo recente bancado pelo “The New York Times” mostrou que a gente é menos tolerante com hipócritas do que somos com os mentirosos comuns, aqueles que não defendem abertamente uma moralidade rígida (pelo contrário, até), mas se consideram insuspeitos. Se você ouve alguém dizer “é errado desperdiçar energia”, serão grandes as chances de você acreditar que essa pessoa não desperdiça energia. Porém, se a mesma pessoa dissesse “eu não desperdiço energia”, é bem mais difícil acreditar nela.

Indo além: o mesmo estudo sugere que pessoas que fazem declarações fortes como “desperdiçar energia é moralmente indefensável”, e que, na prática, desperdiçam energia, têm mais chances de restaurar suas reputações se assumirem publicamente os seus desvios. Isso indica que somos mais propensos a recusar irrevogavelmente a hipocrisia em si, mas não o hipócrita em si. O que mais irrita, concluiu-se, é a falsa declaração de virtude, não um eventual desvio de conduta.

Somos todos hipócritas?

SOMOS TODOS HIPÓCRITAS?

Seria exagerado cravar que “toda e qualquer pessoa que não pratica o que prega”, ou “toda e qualquer pessoa cúmplice de comportamentos indiscutivelmente hipócritas”, ou “toda e qualquer pessoa que use dois pesos e duas medidas” seja hipócrita. Precisamos aceitar que ser humano é ser incoerente. Viver não é uma teoria que colocamos em prática e pronto. Alguma coerência no dia a dia é tão possível quanto desejável, mas isso nunca irá nos livrar de termos que enfrentar dilemas ético-morais.

A realidade normalmente exige de nós uma capacidade de adaptação muitas vezes contrária à nossa vontade e aos nossos valores. Levante a mão quem nunca sentiu na pele o descompasso de acreditar em uma coisa e ser obrigado a realizar outra. Querer defender com unhas e dentes um mundo em que inexistam hipocrisias e hipócritas tampouco faz sentido. Ser sempre isto, nunca aquilo, é algo impossível de implementar, e muito limitante. Mas uma coisa é certa: somos menos hipócritas quando percebemos e admitimos nossos erros, e mais hipócritas quando os ignoramos e negamos.

/// Se você curte escrever mas nem sabe como começar, leia isto. ///

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Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e tradutor. Apaixonado por artes e psicologia. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros" e "Biografismo". Mora em Florença, Itália. //// Journalist, writer, and translator. Loves arts and psychology. Author of "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo", and other books. Lives in Florence, Italy: https://sergiovilasboas.com.br ///// [email protected]

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