O preço do dinheiro é para sempre. Teremos que nos relacionar com dinheiro a vida inteira, não importando se somos ricos ou pobres. Para o bem ou para o mal, o dinheiro atravessa todos os âmbitos. Impacta nosso senso de identidade e nossa atitude em relação a outras pessoas. Somos governados por representações do dinheiro, como liberdade, desejo, poder, status, trabalho e posse. Desperta a cobiça e a generosidade, a sabedoria e a inconsequência, a coragem e a culpa. Como é a tua relação com dinheiro? Quais emoções ele provoca em você? Insegurança? Ansiedade? O quê?

PROBLEMAS E PREOCUPAÇÕES
Em algum momento, teremos problemas de dinheiro. Problemas de dinheiro decorrem de escassez, não de abundância. A baixa capacidade de bancar os custos fixos, os consumos, as dívidas de longo prazo e os imprevistos que inevitavelmente surgem pelo caminho é um problema concreto e matemático: você precisa de uma certa quantidade para não estar no vermelho, fazer funcionar o cotidiano e se sentir menos pressionado. “Problema de dinheiro” é diferente de “preocupação com dinheiro”, creio.
Problema de dinheiro só pode ser enfrentado de duas maneiras. Ou você corta gastos e liquida tuas dívidas ou descobre um modo de ganhar mais. As preocupações com dinheiro são mais complexas. Envolvem ideais de felicidade, sentir-se aceito, querido e admirado, comparar-se com os outros e o valor não monetário que atribuímos às coisas, às pessoas e às experiências. O fato é que, bem no fundo, dinheiro não é dinheiro. Dependendo de como o encaramos, ele pode ser uma prova de generosidade, a vitória sobre um rival, o caminho para o amor ou um veneno.
FELICIDADE E VALOR
A gente ouviu mil vezes que “o dinheiro não traz felicidade”. E comprovou-se que não traz mesmo. Pesquisas demonstraram que depois de alguns aumentos nos ganhos mensais (que melhoram o conforto material), o dinheiro passa a ter pouca ou nenhuma importância na sensação de bem-estar. Ou seja, depois que a gente consegue os benefícios mais urgentes que o dinheiro pode comprar (moradia, comida, roupas e serviços básicos), ele vai se descolando da equação da felicidade. Não se pode comprar serenidade e alegria de viver, por exemplo.
“Se quisermos ser sensatos em relação a dinheiro, deveríamos resistir ao impulso de seguir nossos desejos e, em vez disso, nos concentrarmos em ter aquilo de que precisamos”, escreve John Armstrong em seu livro “Como se Preocupar Menos Com Dinheiro”. Mas necessidade não é precisar disso ou daquilo apenas por questão de sobrevivência. Violinistas desejam o melhor arco para seus violinos por necessidade. Isso é importante em suas carreiras de músicos. Questão de desempenho, não de status. Ou seja, você precisa de algo porque a coisa para você possui um valor em si mesma.

INVEJA E STATUS
Dinheiro atiça a inveja. Normalmente, invejamos o que o outro possui, mas não quem ele/ela é. Você vê uma Ferrari passar e não pensa “uau, o sujeito que dirige aquele carro é demais”. Em vez disso, pensa “se eu tivesse aquele carro, eu seria demais”. Não é errado admirarmos uma pessoa ou vê-la como invejável, mas convém nos perguntarmos por que a admiramos e o que invejamos nela. Ser equilibrado, generoso, empático e sensível à beleza é um status elevado (e atraente, a meu ver). Invejar essas qualidades e se mover na direção de adquiri-las é inspiração, não inveja.
A imaginação do invejoso é fértil. Leva à conclusão (a priori) de que o sujeito que dirige a Ferrari é bem-sucedido, rico, importante e de bom gosto, mesmo sem conhecê-lo. Se você tem inveja apenas do tipo de cartão de crédito do outro, ou da escola que ela/ela frequentou ou da casa em que ele/ela mora, isso pode significar que você tenha necessidade de uma forma de admiração e respeito que nenhuma quantidade de dinheiro poderá te dar. Talvez você atraia mais respeito sendo autêntico, gentil e solidário do que possuindo coisas (objetos).
COMBUSTÍVEL E POUPANÇA
Apesar de o dinheiro não comprar a felicidade, as pessoas querem ter mais dinheiro para serem mais “felizes”. Se existisse o “combustível universal da felicidade”, ele poderia ser traduzido em “ter controle sobre a própria vida”. “A possibilidade de fazer o que se quer, quando se quer, com quem se quer, pelo tempo que se quer, não tem preço. É o maior dividendo que o dinheiro pode pagar. (…) Mais do que o seu salário, do que o tamanho da sua casa, do que o prestígio do seu trabalho”, escreve Morgan Housel em “A Psicologia Financeira”.
No sistema capitalista selvagem em que vivemos, no qual o estímulo ao consumo é onipresente, ninguém parece disposto a nos ensinar a poupar. Querem que estejamos atolados em dívidas, com a casa repleta de coisas inúteis, com patrimônios que não refletem quem realmente somos e… sem tempo! Sim, nossa “infelicidade” é a base do sistema. Não por acaso há tanta gente viciada em comprar. Comprar para preencher um vazio ou por automatismo. Um minimalista histórico como eu vê o consumista radical como alguém que nunca terá controle sobre seu tempo (risos).
REGRAS E DISPUTAS
A qualidade da nossa relação com dinheiro vai depender do nosso grau de desapego. Como é impossível um desapego absoluto, precisamos aceitar que dinheiro é importante e que talvez seja melhor pensar sobre ele, em vez de evitar o assunto. A gente também não costuma levar em conta que ao longo da vida nossos valores e atitudes mudam conforme a idade e as circunstâncias. Ao longo da vida, você pode se tornar outra pessoa até mais de uma vez, se quiser/puder. O projeto de vida para a pessoa que você era vinte anos atrás talvez não faça mais sentido.

O fato é que não existe plano financeiro para o futuro que possa funcionar para sempre. Suponhamos que você seja um(a) privilegiado(a) que pode criar um plano financeiro para o teu futuro e depositar dinheiro nele mensalmente. No caminho, você terá de se questionar: por que guardar dinheiro para daqui a vinte, trinta anos se hoje estou endividado e insatisfeito? Vale a pena prolongar as insatisfações e os desconfortos atuais em nome de uma provável tranquilidade futura? Não existe solução eterna. Sim, o preço do dinheiro é alto e pensar seriamente sobre isso dá trabalho, mas vale a pena.