Os mecanismos da intuição

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Em tempos de Inteligência Artificial, até a intuição já está ao alcance de robôs, como o DeepMind da AlphaGo. Três aspectos importantes a respeito disso: 1) Cientistas vinham dizendo que intuição na verdade é mero “processamento de padrões”; 2) Processar padrões, porém, é uma noção limitada, se considerarmos o que uma intuição é capaz de efetivar. 3) É o caso de conhecermos os fatos e as ficções sobre os mecanismos da intuição.

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DEFINIÇÕES

A intuição intriga filósofos e cientistas pelo menos desde os tempos da Grécia Antiga. Não há uma definição única e acho que nem devia haver. O neurocientista António Damásio a descreve assim: “É uma maneira de fazer linha reta para a solução de um problema sem ter que passar por todas as fases intermediárias”. Se preferir dizer que “é um pressentimento que emerge inexplicável e repentinamente na consciência”, está valendo.

É como se instinto e razão tivessem combinado uma conspiração momentânea em prol de um sério palpite. Para construir robôs que cada vez mais substituem o humano em tarefas complexas foi necessária uma alta de dose de cálculo matemático e engenharia de dados, obviamente, mas também muita percepção direta e indireta. A intuição pode nos levar a tomar atitudes também, se quisermos.

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A intuição é muito confundida com insight. Ambos se baseiam em processos subconscientes, mas não são sinônimos. Insight tem a ver com visualizar uma solução e verbalizá-la para outra pessoa. Já a intuição é sentimento. Podemos sentir a solução de um problema ou uma decisão a tomar. Mas isso quase sempre nos vêm como hipótese. Antes de partir para a ação, não temos como saber se nossas intuições estão certas ou erradas. É uma aposta. O insight, não. O insight altera/reformula/complementa um conhecimento que já possuíamos.

MENTE E CORPO

Importante considerar que a intuição não se manifesta apenas na nossa mente. O corpo também a indica. Dores no estômago, tremores nas mãos ou taquicardia, por exemplo. E não se refere somente à criatividade individual. Ao contrário, é um fenômeno onipresente. Está nas interações sociais, nos moralismos de grupo, nas operações da memória, nas viagens, nos sonhos, nos arrependimentos, no bom e no mau humor, nas culpas, na busca por um sentido para a vida…

Você já deve ter experimentado momentos em que sentiu que as coisas não iam bem, apesar das evidências contrárias. Diversas vezes me senti muito desconfortável diante de uma pessoa que eu acabara de conhecer e que estava agradando muito a todos os demais ao nosso redor. Sim, há o fato de que sou introvertido e ao mesmo tempo altamente sensível (essa expressão é um conceito da psicologia, não uma presunção).

Pessoas altamente sensíveis (PAS) geralmente são também introvertidas e têm mais facilidade de transformar em linguagem verbal o que sentem a respeito de uma ocorrência “invisível”. Contudo, independentemente do perfil psicológico, entendo que qualquer pessoa bem sintonizada no tempo presente é capaz de pressentir situações fora do comum (trata-se de uma competência em potencial). Sim, para pressentir, você precisa estar presente aqui agora.

DESCONFIANÇAS

Cientistas sempre tiveram dificuldade em encontrar evidências de que a intuição existe realmente. Talvez por isso na cultura ocidental ela tenha ficado por séculos restrita aos círculos religiosos, espiritualistas e esotéricos. Culturalmente falando, aliás, até hoje muita gente ainda tende a eliminar seus pressentimentos por acreditarem que não têm valor ou não têm lógica (e é verdade que muitas vezes não fazem sentido mesmo).

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Essa desconfiança tem a ver com a crença de que a razão é uma qualidade superior. Somos animais. Animais diferentes, afinal. Mas diferentes não porque podemos contar com a razão, e sim porque podemos contar com a razão e com o instinto. E quer saber? Não vejo vantagem nenhuma em rejeitar o instinto em nome do lógico ou o lógico em nome do instinto. A vantagem está exatamente em usar ambos (e talvez algo mais, que nem sabemos ainda o que é).

EXPERIMENTO (1)

Pesquisadores da Universidade de New South Wales, Austrália, desenvolveram um experimento (publicado em 2016) no qual os participantes foram expostos a imagens repletas de conteúdo emocional fora da percepção consciente. Enquanto isso, tentavam tomar decisões que exigiam exatidão. Os resultados demonstraram que as pessoas analisadas foram capazes de usar as informações coletadas para tomar decisões seguras mesmo diante de imagens que estavam vendo pela primeira vez.

Os dados coletados sugeriram que podemos usar informações inconscientes em nosso corpo ou cérebro para ajudar a nos guiar ao longo da vida. Em tese, isso nos permitiria tomar decisões com mais confiança. Outro achado interessante desse estudo, que estou sintetizando de forma bem simplificada, é que a intuição dos participantes melhorou com o tempo. Essa melhora é sinal de que os mecanismos da intuição podem ser aprimorados com alguma prática, concluíram.

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EXPERIMENTO (2)

Outra pesquisa, dessa vez da Northwestern University, conduzida por Judity Hall, sugeriu que somos melhores em intuir do que em refletir sobre enganações e sobre a orientação sexual alheia, por exemplo. Somos bons em ter uma primeira impressão sobre os outros, diz Hall, desde que a gente não fique pensando demais a respeito. “Porque é como dirigir um carro. Se você pensar demais em como se dirige um carro, não consegue dirigi-lo.”

E um estudo publicado na “Journal of Research in Personality” (2020) sugeriu que seguir intuições pode também levar a crenças obscuras. Duas pesquisadoras investigaram a relação entre intuição e “pensamento mágico”, na visão de homens e mulheres. Os participantes induzidos pela fé (mais mulheres do que homens) mostraram mais confiança na intuição. Os homens, inversamente, tinham mais confiança na intuição à medida que ampliavam suas crenças em magias e superstições.

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PRÁTICA

Na verdade, esses experimentos acadêmicos não resolvem o problema central de como podemos usar a nossa intuição no dia a dia. Daí que temos que procurar modos e modos de captá-la, retê-la e aplicá-la. Um exercício interessante (e que já funcionou para mim) é dar às intuições o mesmo destino que poderíamos dar aos nossos sonhos, por exemplo: anotar pensamentos e sentimentos, mesmo quando não parecem ter uma lógica.

Mas faça isso sem perfeccionismos, para poder permitir que informações emocionais te despertem para outras perspectivas. Esse exercício de anotação exige outra atitude não convencional: desligar o crítico interno, aquela maledetta voz que fica enchendo a sua cabeça de pré-julgamentos. Com o crítico interno em off, você se libera do medo do ridículo. Mas escolha um lugar silencioso, onde possa ficar a sós, e conecte-se consigo mesmo. O instinto é tão teu quanto a tua razão. Tire proveito de ambos.

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Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e tradutor. Apaixonado por artes e psicologia. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros" e "Biografismo". Mora em Florença, Itália. //// Journalist, writer, and translator. Loves arts and psychology. Author of "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo", and other books. Lives in Florence, Italy: https://sergiovilasboas.com.br ///// [email protected]

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