Conversar silenciosamente a sós

62 Shares

Há algum tempo uma voz dentro de mim vinha me dizendo que eu devia escrever algo sobre “conversar comigo mesmo, silenciosamente” (risos). O momento certo surgiu com o lançamento de “Chatter: The Voice in Our Head. Why It Matters and How to Harness It” (2021), de Ethan Kross, neurocientista americano. “Chatter”, além de bem escrito, é inspirador.

Conversar silenciosamente a sós

Kross é um estudioso da Ciência da Introspeção. Fundou e dirige o Emotional & Self Control Laboratory, na Universidade de Michigan. “Todos nós temos uma voz interior”, afirma. “É uma das coisas que nos torna humanos. O fato de termos essa voz interior nos permitiu não apenas sobreviver como espécie, mas também prosperar. A maneira como lidamos com os nossos diálogos internos também pode determinar se teremos bem-estar ou não.”

DO QUE SE TRATA

“Chatter” é resultado de anos de estudo de Ethan Kross sobre as “bate-papos” interiores que mantemos com nós mesmos, e que podem influenciar nosso modo de viver. Pense em alguém que nunca se pegou ouvindo uma voz interior discutindo, por exemplo, o que fazer (ou não fazer) amanhã. Pensou? Então, saiba que uma pessoa assim simplesmente não existe, segundo Kross. Todos temos essa tal voz interior.

Ele cita um estudo mostrando que usamos com nós mesmos 4 mil palavras por minuto. Para você ter uma ideia, o tradicional discurso do presidente americano sobre o Estado da União tem cerca de 6 mil palavras e costuma durar mais de uma hora. Na nossa cabeça, um pensamento leva a outro que leva a outro que leva outro que leva a ruminações infinitas. Essa tagarelice interna pode ser pacífica ou furiosa. Pode te mover adiante ou te sabotar. “Depende de como você lida.”

Newsletters

EM TERCEIRA PESSOA

Por que algumas pessoas conseguem olhar para dentro e entenderem seus sentimentos e emoções e outras desmoronam quando tentam fazer o mesmo? É uma das perguntas que Kross se fez na pesquisa. Para pessoas angustiadas, ansiosas e deprimidas a introspecção faz mais mal do que bem: “Nesses casos, os pensamentos dão origem a ciclos negativos que transformam a introspecção em uma maldição, em vez de uma bênção”.

A falação interior não tem como ser eliminada completamente (“isso não é possível nem recomendável”), mas dá para usar usá-la de maneira favorável a nós, em vez de permitirmos ela que nos destrua. Exemplo hipotético. Digamos que eu esteja nervoso e me digo assim (em terceira pessoa): “Calma, Sergio, não é o fim do mundo”. Agir dessa maneira, conscientemente e com “distanciamento”, faz bem, concluiu Kross.

SENSO DE PERSPECTIVA

Algumas comprovações expostas no livro contrariam o senso comum. Por exemplo, a ideia de que é sempre melhor desabafar repetidamente com outras pessoas do que conversar consigo mesmo em terceira pessoa, sem desespero. Segundo Kross, quando falamos demais sobre nossos problemas com os outros corremos o risco de afastar, em vez de atrair, potenciais aliados.

conversar silenciosamente a sós
Ethan Kross, pesquisador do Emotional & Self Control Laboratory e autor de “Chatter”

Por outro lado, algumas dicas que ele oferece já são bem conhecidas, para não dizer desgastadas. O toque (abraçar alguém), o contato com a natureza, as atividades contemplativas (caminhada na praia, observação de obras de arte, etc.) e organizar a casa, por exemplo. “Tais ações ampliam o senso de perspectiva sobre o que está ocorrendo dentro de nós”, diz ele.

FLUXO VERBAL

Nosso fluxo verbal desempenha um papel indispensável na criação de nós mesmos. O cérebro constrói narrativas significativas por meio de um raciocínio, digamos, autobiográfico. Usamos a mente para escrever nossa história pessoal. Isso ajuda a descobrir nossas crenças, valores e desejos; ajuda também a superar adversidades e amadurecer, “gerando uma identidade em contínua construção”.

Linguagem e fragmentos aparentemente desconectados da vida diária compõem o fio condutor de nossa história pessoal. Narramos o que o ocorre (dentro e fora). “As palavras da mente esculpem o passado e, assim, estabelecem uma narrativa para nos guiar no futuro. Ao se ajustar entre diferentes memórias, nossos monólogos internos tecem uma teia neural de lembranças. Se bem utilizado, isso pode fazer muito bem à saúde mental.”

/// Saiba mais sobre o Sergio Vilas-Boas. ///

/// Siga o Sergio no Instagram ///

/// Precisa de um produtor de conteúdos? Leia isto. ///

Newsletters
62 Shares

Sergio Vilas-Boas

Jornalista, escritor e tradutor. Apaixonado por artes e psicologia. Autor de vários livros, entre eles "Perfis: o Mundo dos Outros" e "Biografismo". Mora em Florença, Itália. //// Journalist, writer, and translator. Loves arts and psychology. Author of "Perfis: o Mundo dos Outros", "Biografismo", and other books. Lives in Florence, Italy: https://sergiovilasboas.com.br ///// [email protected]

Write a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

conteúdo protegido
62 Shares 810 views
Share via
Copy link
Powered by Social Snap