O SENTIDO DA VIDA É A VIDA COM UM SENTIDO

Uma existência rica de significado tem também efeito protetor sobre a saúde

Qual é o sentido da vida? Quantas mil vezes você ouviu – ou (se) fez – essa intrigante pergunta. A filosofia afirmaria certamente que nada possui sentido em si. Então, o sentido da vida seria determinado por nós mesmos, cada qual à sua maneira. Mas o importante é que estudos recentes têm demonstrado que sensações de entorpercimento e magnificência em relação ao Universo podem impactar positivamente o cotidiano e gerar muitos benefícios. Pesquisas neurocientíficas comprovaram que quem acredita que a própria vida possui um significado (qualquer que seja) é mais feliz, mais otimista, mais bem integrado à sociedade e mais capaz de enfrentar o estresse diário. Uma existência rica de significado tem também efeito protetor sobre a saúde. Pessoas que participaram dessas pesquisas apresentaram um risco de mortalidade menor, com menos chances, por exemplo, de enfartar, sofrer derrame ou desenvolver demência; os processos inflamatórios que causam doenças crônicas ou degenerativas também se reduzem. Ler mais

¶ ¶ ¶ 

Atitude é o que nos caracteriza

Em cada um de nós existe um estado mental (formado pela relação passado-presente) que nos predispõe a agir ou reagir de uma certa maneira diante dos acontecimentos e suas circunstâncias. A atitude decorre da leitura que fazemos do que para nós é a realidade naquele dado momento. Esse entendimento pode variar entre o extremamente negativo e o extremamente positivo – claro, as ambivalências (a simultaneidade de dois sentimentos opostos) são consideráveis também. O fato é que as nossas atitudes (positivas, negativas ou ambivalentes) são muito mais importantes do que imaginamos, e por isso precisamos repensá-las de tempos em tempos. [Não por acaso criei esta revista e dei a ela esse nome (risos).] Ler mais

¶ ¶ ¶ 

A percepção do tempo

O entendimento e o domínio do tempo são uma questão de percepção

O tempo não é um objeto ou substância que podemos tocar ou ver. Também não é uma quantidade, um conceito ou uma dimensão. É inerte: nem rápido nem lento; nem claro nem escuro; nem bom nem mal. Na prática, é apenas uma invenção humana para nos ajudar a acompanhar os acontecimentos, mas o tempo contém tantos aspectos que representa coisas diferentes para pessoas diferentes em circunstâncias diferentes. O entendimento e o domínio do tempo, portanto, são uma questão de percepção. Como o utilizamos e se o vemos como um aliado ou um inimigo, por exemplo, são fatores importantes para a produtividade e o bem-estar. Minha relação com o tempo foi estressante em grande parte da minha vida. Apesar de toda aquela força motora incessante, sentia-me sempre em atraso, embora fosse pontual. Ler mais

¶ ¶ ¶ 

O insidioso ciclo da culpa

O sentimento de culpa e a autoaceitação estão intimamente ligados

Assim como sentimos prazer e dor, sentimos culpa, e nunca nos livraremos para sempre desse sentimento. [Os psicopatas não o têm nem mesmo quando violam o Código Penal.] Já nós, os “normais”, sofremos com as consequências do que acreditamos que devíamos ter (ou não ter) feito. O sentimento de culpa decorre de uma convicção – quase sempre injustificada – de estarmos causando danos (materiais ou psicológicos) a alguém. Esse alguém pode ser até um cão ou um gato, mas, na maioria dos casos, é um indivíduo humano, e as consequências dos dilemas à culpa podem ser graves. Ler mais

¶ ¶ ¶

A preguiça pode ter um fim

A inércia (ausência de vontade) é tão física quanto emocional

Embora eu adore futebol e copas, seleção brasileira me dá preguiça, não importa a escalação nem quem escalou e muito menos o resultado. Calma. Antes de me atirar pedras, raciocine: a preguiça é um tema mal abordado (quando abordado), não? E se você tem preguiça de raciocinar ou de torcer vivamente pela “sua” seleção, já temos aí uma boa razão para explorar o assunto. A preguiça é socialmente indefensável em todas as culturas civilizadas. No cristianismo, é um dos sete pecados capitais. No reino do capital, da produção incessante, quem a tem é rotulado das mais variadas maneiras (com ou sem razão). O fato é que a preguiça diz muito sobre a pessoa considerada preguiçosa, mas também sobre quem observa e descreve essa tal pessoa. Ler mais

¶ ¶ ¶

A (des)atenção posta à prova

O estresse debilita a capacidade de focar e prestar atenção

Está cada vez mais difícil prestar atenção, certo? Enquanto a escola  organiza a nossa mente para o amanhã, em ordem cronológica, a era digital organiza tudo de modo reverso, do mais recente para o mais antigo, fragmentando a nossa capacidade de memorizar. É como se estivéssemos tentando, inutilmente, viver “tudo ao mesmo tempo agora”, com toda a frustração que isso implica. Como escapar? A única certeza é que é inútil ficar lamentando o caráter invasivo da tecnologia em nosso cotidiano. Na verdade, precisamos de estratégias de autocontrole, como fazemos com outras “tentações”. Para ajudar a manter ereta a atenção, Mindfulness é a técnica da hora. Ler mais

¶ ¶ ¶

A posse e o efeito posse

Foto: Eilon Paz, “Dust & Grooves” (2015), sobre colecionadores de vinis

Se objetos colecionados são “chaves para outro mundo” e “certificadores de imortalidade”, como crê Philipp Blom em seu excêntrico livro sobre colecionismo, seria eu um insensível que não consegue tocar “as profundezas de quem sou”? Adoro perguntas que me atingem em cheio, mas acho que não é o caso de responder a esta. Apesar de ser minimalista e de não colecionar asbolutamente nada, me sinto tão pleno de corpo e alma quanto quem retém obstinadamente ingressos de cinema, ímãs de geladeira, cartões postais, bolinhas de gude, relógios velhos, mouse pads, canetas, revistas antigas, cabides, contas de restaurante, miniaturas, etc. Ler mais

¶ ¶ ¶

Sorte é mais do que sorte

Pesquisas indicam que a sorte é mais importante do que se imaginava

Nas sociedades altamente competitivas a ideia de sorte está acoplada a um paradigma tão antigo quanto imutável: o de que o sucesso (material, financeiro) decorre principalmente (se não unicamente) de características individuais como talento, inteligência, vontade, esforço e habilidade em correr riscos. A ladainha termina assim: “E uma pitada de sorte”. “Se é verdade que algum grau de talento é necessário para ter sucesso na vida, por que a maioria das pessoas mais talentosas não alcançam os mais altos picos de sucesso, sendo ultrapassadas muitas vezes por indivíduos medíocres?”, questionaram três pesquisadores italianos. Ler mais

¶ ¶ ¶

Ponderando decisões cruciais

Processos decisivos costumam gerar angústia, agonia e paralisia

Recebi muitas mensagens pedindo que eu desdobrasse o assunto escolhas e decisões, abordado semana passada. Então, atendendo a pedidos, chegamos ao tema das decisões cruciais, aquelas que podem mudar nosso destino de maneira irrevogável e cujos processos nos deixam com a sensação de estarmos imersos em uma espécie de névoa, sem saber exatamente o que fazer. Diferentemente das escolhas de “coisas”, nas decisões cruciais o número de alternativas é geralmente pequeno. Em muitos casos, estamos lidando com apenas duas opções, e todas têm pros e contras, e nenhuma é melhor que a outra, necessariamente. Ler mais

¶ ¶ ¶

Escolhas são paradoxais 

Por falta de opções de trabalho, matam-se elefeantes. Foto: Nick Brandt

Por que é cada vez mais difícil escolher? Well, let’s face the facts:  1) Opções demais geram confiança de menos porque o afã de dar a tacada certa nos paralisa; 2) O que nos trava não é a tomada de decisão em si, mas as possíveis consequências da decisão; 3) A gente tenta evitar ser responsável por uma escolha por medo de se arrepender; 4) Toda decisão tem um preço – monetário (em moeda corrente mesmo) ou não monetário.  5) Para cada escolha feita (ou decisão tomada), estamos também escolhendo não escolher, obviamente; 6) E com tantas opções interessantes ao alcance, nossas expectativas em relação às escolhas aumentam muito. Em países pobres como o Congo e a Nigéria, por exemplo, essa “neurose” simplesmente inexiste. Ler mais

¶ ¶ ¶

Cosmopolitismo pode ser um atrativo

Para as pessoas genuinamente cosmopolitas, a praia é outra

Cidadão do mundo é quem pretende superar os limites da divisão geopolítica e as cidadanias nacionais. Os cosmopolitas recusam a identidade patriótica que os governos nacionais impõem e reconhecem-se como independentes por serem Cidadãos da Terra. É o meu caso. Em maio de 1992 (26 anos atrás), aos 26 anos de idade, parti de Belo Horizonte para a minha primeira viagem internacional: Nova York. Até então, eu só tinha viajado de avião uma única vez e nunca havia posto os pés em uma cidade cosmopolita. Minha vida nunca mais foi a mesma. Meu modo de ver o mundo, tampouco. Ler mais 

¶ ¶ ¶

Adorações transversais

Diferentemente de um fã, o idólatra se anula como indivíduo

As linhas que separam o super fã de um idólatra compulsivo ou de um fanático insano não são fáceis de identificar. Um fã admira ídolo e obra e ponto. Já o idólatra tende a se anular como indivíduo à sombra de suas adorações. Não se gosta e tem autoestima baixa, segundo pesquisas.  E os fanáticos? Não por acaso se atraem e formam grupos coesos, impedindo-se uns aos outros de colocar em dúvida suas adesões incondicionais a uma ideia, uma fé, uma teoria ou uma pessoa. Cria-se, assim, terreno fértil para intolerâncias. Apesar dessas sutis diferenças, idolatria e fanatismo têm raiz idêntica: a idealização. Ler mais

¶ ¶ ¶

Comparações que apreciam

Por que a grama do vizinho parece “sempre” mais verde?

Comparar-se com os outros é tão inevitável quanto interessante, às vezes, se consideramos os possíveis efeitos educativos. Mas tenho tentado moderar as comparações, no sentido de torná-las mais pertinentes e seletivas. Enxergar o outro através de mim e me enxergar no outro é uma experiência extraordinária, que mantém ativos o corpo, o raciocínio, a existência. Acho válido, por exemplo, observar o outro sem superioridade nem inferioridade; melhor ainda quando me leva a querer “imitar” um comportamento que me impressiona positivamente. Mas o que mais me interessa aqui não são as conclusões das comparações, mas sim o porquê de às vezes nos ocuparmos tanto com isso. Na verdade, pouco importa se a comparação é favorável ou desfavorável para quem se compara. Importa que comparar-se em excesso é uma atitude tão inútil quanto ficar reclamando sem parar. Ler mais

¶ ¶ ¶

Perseverando na espera

Perseverança e tolerância não são valores absolutos

A sabedoria de esperar (e, por consequência, de perseverar) é a base de muitos projetos bem-sucedidos de curto e de longo prazo. Mas essa é uma habilidade que não estava escrita em meu DNA. Fui obrigado a aprendê-la empiricamente, tanto nos relacionamentos com pessoas quanto nos relacionamentos com as adversidades do dia a dia. A duras penas entendi que só vale a pena perseverar quando a recompensa futura é objetivamente melhor que a recompensa imediata (se houver uma); e hoje sei que lido melhor com os obstáculos diários nos momentos em que estou centrado, satisfeito comigo mesmo e com meus desempenhos. Ler mais

¶ ¶ ¶

Reclamar é tão impreciso quanto

Reclamar indiscriminadamente é uma espécie de antiatitude

Com ou sem razão, reclamar indiscriminadamente parece grátis, mas tem um preço… Vejam que paradoxo: nos momentos em que minha vida estava de fato ruim, lutei como um autêntico guerreiro; mas nos momentos em que tudo parecia andar (e realmente andava) bem, comecei a reclamar do que faltava e do que não. Isso não me torna um indivíduo singular entre os demais da espécie à qual pertenço – a mesma que vocês pertencem. Ao contrário. E foi essa trivialidade do ato de reclamar que me levou a pensar a respeito. Ler mais

¶ ¶ ¶

Elogiemos a imperfeição

Perfeição é uma ideia humana e imperfeita. Foto: Roger Ballen (1999)

A crença irrefletida na perfeição pode estagnar, enquanto a aceitação do imperfeito gera movimento contínuo… O ideal de perfeccionismo me movia adiante. Ainda move, mas em grau menor. Sinais: 1) Por ter grande capacidade de perceber e reter na memória detalhes e padrões (físicos e comportamentais), incluo muitas variáveis extras nos relacionamentos e nos processos de trabalho; 2) Alimento uma desconfiança irrestrita em relação ao que faço, como se profissionalismo e qualidade elevada por si só não fossem um caminho para a excelência; 3) Reescrevi este parágrafo dez vezes. Well, em uma cultura obcecada pela aparência e pela fama fácil, não raro nos sentimos diminuídos; e como a autoestima não é inata, e sim construída, sempre paira a opção da renúncia. Criam-se tantas expectativas que nada, absolutamente nada parece alcançável. Os perfecionistas doentios refazem, refazem e refazem infinitamente, na crença (crença inclui alta dose de imaginação) de que atingirão o inatingível. Ler mais

¶ ¶ ¶

Senso de privacidade

Privacidade implica uma dose de autocontrole. Foto: Drew Meyers (2017)

Omitir as próprias idiossincrasias é uma coisa, evitar contagiar-se pelo excesso de informações sobra a vida alheia é outra. Dizer que sou apegado à privacidade é correto, mas meus jovens leitores podem questionar: se assim fosse, você não se revelaria em um blog – ao escrever, por exemplo, sobre sua dificuldade em exercer atividades nas quais deixou de acreditar. Nada a ver. É possível uma pessoa ser pública (exposta) no mundo virtual e ao mesmo tempo privada (protegida em sua intimidade) no mundo concreto. Raramente libero informações íntimas nas redes sociais ou no mundo concreto (onde tudo é mais difuso). Ler mais

¶ ¶ ¶

O fim de um jejum necessário

Lúdico alívio após longa reflexão. Foto: Chee Keong Lim (2015)

Não consegui continuar fazendo coisas nas quais deixei de acreditar, daí optei por me retirar de cena, por um tempo. Virei jornalista meio que por acaso, e valeu a pena, mas fui abandonando a atividade pouco a pouco, ano a ano, sempre tentando abrir espaços para outros modos de vida. O mesmo aconteceu com a minha trajetória de professor: investia e desinvestia conforme as demandas por bem-estar físico e mental. Principalmente mental. O único objetivo que atravessou com alguma constância pelo menos metade da minha vida foi o de me tornar escritor. E aconteceu, e também valeu a pena. Porém, experimentei – por vontade própria – um jejum de mais de dois anos. Ler mais